Guilherme Duarte
Flávio Azevedo
Alfonso Martinez
Ana Beatriz da Conceição Rocha, que faria quatro anos hoje (sábado, 29), e Ana Cláudia Rodrigues Pereira, de 23 anos, morreram após ficarem soterradas por aproximadamente 3 horas em uma residência no bairro Marajó, que foi atingida por um deslizamento de terra, na tarde da última terça-feira (25), quando o município de Rio Bonito foi atingido por um temporal que deixou mais de mil pessoas desalojadas. Outras oito pessoas ficaram feridas com o deslizamento naquele bairro. Devido aos inúmeros estragos causados pelas fortes chuvas, o prefeito José Luiz Mandiocão, decretou estado de emergência no município.
O drama dos moradores do bairro Marajó, mais conhecido como Buraco da Gambá, começou por volta das 15h30, quando uma encosta desabou atingindo três residências localizadas na Rua das Olarias. Apenas uma das três casas atingidas não teve vítimas. O proprietário, o servente de obras Geraldo Carvalho, de 52 anos, tentou explicar como tudo aconteceu. “No momento do deslizamento, eu estava vendo televisão com meu neto. Ouvi um estalo e não deu tempo de fazer nada, puxei meu neto e saí correndo para fora de casa. Depois que eu fui ver que o deslizamento tinha atingido apenas a cozinha e a varanda. Por sorte não fomos atingidos. Infelizmente meus vizinhos não tiveram a mesma sorte. Acredito em Jesus Cristo e tenho certeza que foi ele que me salvou”, disse Geraldo, bastante assustado.
Na casa ao lado, dois homens ficaram presos debaixo da terra. Além dos bombeiros e de homens da Defesa Civil Municipal, moradores da localidade, funcionários da prefeitura e até o prefeito José Luiz ajudaram no resgate das vítimas. José Carlos Pires da Silva, de 21 anos, foi o primeiro a ser retirado do local. Ele foi levado para o Hospital Darcy Vargas em uma das ambulâncias do SAMU. Valdinei da Silva, de 17 anos, demorou mais para ser retirado, já que estava com cerca de 70% do corpo soterrado. Durante o resgate, ele reclamava bastante com dores e perguntava pela mãe. “Eu não estou sentindo mais o meu pé e minha perna está doendo muito. Me tira logo daqui. Cadê minha mãe? Ela deve estar passando mal, avisa a ela que estou bem, mas me tira daqui”, dizia o rapaz, que nesse momento já recebia soro e estava coberto com um manta térmica, pois apresentava sinais de hipotermia. Para acalmá-lo, um bombeiro dizia: “Calma que vamos tirar você daí. Agradece a Deus por você estar vivo”. Logo em seguida, Valdinei foi retirado e levado para o Hospital Regional Darcy Vargas, onde José Carlos já estava sendo atendido.
Mas a situação mais complicada era na terceira casa, a mais atingida pelo deslizamento. Naquele momento, quando Valdinei foi retirado, apenas duas das oito pessoas soterradas haviam sido resgatadas, a menina Pâmela Belizário, de 2 anos, que estava apenas muito assustada e suja de terra, e Lucimar Maria da Conceição, de 30 anos. Seis pessoas ainda estavam soterradas.
Luta contra o tempo para socorrer as vítimas
À medida que o tempo ia passando, o resgate ficava cada vez mais dramático. A essa altura mais de 50 pessoas trabalhavam para retirar as vítimas debaixo dos escombros, entre moradores da localidade, Corpo de Bombeiros, Polícia Rodoviária Federal, Polícia Militar, Defesa Civil e funcionários da prefeitura. A terceira a ser retirada foi Cauane Maria da Conceição, de 1 ano. Em seguida, foi a vez de Paola Belizário, de 11 anos. Grávida de sete meses, Mônica Belizário foi a quinta a ser resgatada dos escombros. O dia já começava a escurecer e ainda haviam três pessoas soterradas. O trabalho de resgate já ultrapassava duas horas e uma chuva fina começava a cair, aumentando ainda mais o risco de um novo desabamento. A sexta pessoa retirada foi Ana Cláudia Rodrigues Pereira, de 23 anos, que morreu horas depois no HRDV. Logo depois, Luciana Conceição também foi resgatada com vida. Por último e já sem vida, a menina Ana Beatriz da Conceição Rocha, de 3 anos, foi levada, já sem vida, para a ambulância, terminando assim o resgate que durou mais de três horas.
Duas tragédias na mesma semana
A tensão e a dor eram visíveis no semblante das pessoas que ajudavam no resgate. Mas um dos mais preocupados era o policial militar Jota Ricardo, que estava de folga e um dia antes havia sepultado o irmão, que morreu num acidente de moto na BR-101. Duas irmãs de Ricardo e uma sobrinha estavam soterradas em uma das casas. “Não tenho nem palavras para definir o que está acontecendo com minha família. Ontem (24), sepultei o meu irmão e hoje acontece essa tragédia. Mas acredito em Deus e no trabalho dos Bombeiros. Tenho certeza que elas vão sair dali com vida”, disse o PM no início do resgate. Logo assim que teve a confirmação do estado de saúde dos seus familiares, Jota Ricardo agradeceu o apoio de todos. “É uma pancada atrás da outra, mas graças a Deus desta vez tudo correu bem. Só tenho a agradecer a ajuda de todas as pessoas. Muito obrigado mesmo”, disse, com a voz embargada pela emoção.
Um dos primeiros moradores a chegar ao local foi o estudante Pedro Henrique, de 18 anos. Ele conta que estava em casa vendo televisão e escutou uma mulher gritando que três casas haviam sido atingidas pelo deslizamento. “Eu estava tranqüilão em casa, quando ouvi uma mulher gritando e pedindo ajuda. Quando cheguei, vi que tinha três casas em baixo da terra. Conheço todo mundo aqui nessa localidade e foi muito triste ver meus amigos soterrados. Daí foi chegando gente e começamos a tentar retirar as pessoas. Foi um trabalho muito difícil”, contou Pedro Henrique, que assim como outros voluntários, com a ajuda de pás e enxadas ajudou no trabalho das equipes de resgate.
Quem também participou da operação desde o início foi o policial militar Luciano, lotado na 3ªCia. do 35º BPM (Itaboraí). Apesar de não ser sua função, o policial foi um dos primeiros a prestar socorro às vítimas da tragédia. “Nessa hora, a única coisa que interessa é salvar vidas. Tinha muita terra no local e a laje era pesada. Não podíamos fazer movimentos bruscos, pois tudo poderia desabar. Estávamos lidando com pessoas, por isso o trabalho tinha que ser minucioso. Infelizmente uma criança não resistiu”, contou, com o corpo coberto de terra.
Ao final dos trabalhos, o Tenente coronel Camilo, comandante do 27º GBM (Araruama), fez um balanço do resgate. “Encontramos grandes dificuldades devido ao grande volume de terra e a possibilidade de novos deslizamentos. Trabalhamos com cerca de 30 homens do Corpo de Bombeiros, além de Policiais Rodoviários, funcionários da Defesa Civil e moradores do local. Tivemos êxito ao retirar todas as vítimas do local, mas infelizmente uma saiu sem vida”, disse.
Criança foi resgatada sem vida e estudante morreu no hospital
Ana Beatriz da Conceição Rocha completaria 4 anos hoje. Filha única do casal Carla Rosa da Conceição, de 19 anos, e Magno Rocha, de 21, Ana Beatriz foi a última a ser retirada dos escombros. De acordo com o policial militar que retirou a menina do local, uma laje pesada estava por cima dela, o que teria dificultado o seu resgate. Ana Beatriz foi enterrada um dia após o acontecimento, no Cemitério Municipal de Boa Esperança.
Já Ana Cláudia Rodrigues Pereira, de 23 anos, cursava o Módulo II do Curso de Contabilidade e Custos, no turno da manhã, do Colégio Estadual Desembargador José Augusto Coelho da Rocha Júnior, no bairro Bela Vista. Filha de Manoel Pereira Neto e Zilda Rodrigues da Silva, a estudante morreu por asfixia mecânica por soterramento. Na escola onde Ana Cláudia estudava, as aulas foram suspendidas na manhã da última quarta-feira (26). Colegas de classe e professores ficaram bastante consternados com o acontecimento.
Segundo informações do Hospital Regional Darcy Vargas, apenas Pâmela Belizário, José Carlos da Silva e Valdinei Silva foram liberados. Lucimar Conceição, Luciana Conceição, Cauane Conceição, Mônica Belizário e Paola Belizário ainda estão internadas. Mônica, que está grávida de sete meses, passa bem, assim como seu bebê. Lucimar, Luciana e Paola precisaram ser operadas devido a algumas fraturas.
Ainda muito abalado, o pedreiro Marcos Aurélio de Souza, marido de Lucimar e pai de Cauane, disse que sua família ainda está se recuperando do choque. “Na hora, eu entrei em pânico. Fui o primeiro a chegar e ainda deu tempo de ver uma parede caindo. Graças a Deus a minha esposa e minha filha já estão se recuperando”, revelou Marcos, que morava na casa que foi totalmente destruída pelo deslizamento.