Flávio Azevedo

A ambulante Lecy Borges, de 64 anos, que trabalha no camelódromo ao lado do Mercado Municipal, desabafou, após o temporal de terça-feira. “O camelódromo ficou bonito, estamos bem instalados, mas na verdade, aqui nesse local enfrentamos dois problemas: no verão, o calor é insuportável. Já na época de chuvas fortes, como ontem, nós enfrentamos essas enchentes”.

Já a ambulante Michele Mendonça, de 26 anos, comentou que foram duas pancadas de chuva seguidas. Na primeira, a água subiu bastante e já estava descendo. Mas em seguida veio a segunda pancada de chuva “e não teve jeito, a água invadiu”. Michele diz que “se o camelódromo estivesse instalado na Praça da Bandeira, isso não aconteceria, porque o nível do solo ali é mais alto”. A ambulante frisou ainda, que o rio que margeia a Av. Manuel Duarte é muito estreito para comportar um grande volume de água. Michele também lembrou que “todos têm culpa, principalmente as pessoas que jogam lixo nos rios”.

Sem deixar suas casas, famílias desafiam o perigo

No alto de uma encosta, no bairro Bosque Clube, está a modesta casa do servente Samuel Rodrigues, de 34 anos, que é o chefe de uma família de seis membros. Depois do deslizamento da encosta, a residência ficou a 1 metro do barranco de cerca de 100 metros de profundidade. Apesar disso, a família não demonstra preocupação com o perigo iminente. De acordo com Samuel, o prefeito José Luiz esteve pessoalmente na sua casa, na última quarta-feira (26), pedindo que a família deixasse o local, mas eles não saíram. “Eu sairia se ele me desse uma casa nova”, disparou o servente.

Por mais que sejam simples as acomodações, a preocupação com a propriedade influencia a decisão de deixar a casa e se transferir para um abrigo. É o caso de Samuel, que junto com a esposa, disse que “nós trabalhamos muito para poder comprar esse cantinho. Não é justo que, logo agora, que conseguimos comprar nossas coisas abandonemos o que é nosso”, comentou.

Também no Bosque Clube, a Rua Ruth Albernaz Alves está cedendo e dezenas de casas próximas podem ser atingidas. Mas a aposentada Cely Gonçalves da Silva, de 69 anos, disse que não está assustada. Ela justificou a sua tranqüilidade, contando que já morou em lugares onde as calamidades eram constantes. “Eu morei em lugares no Rio de Janeiro, que quando chovia, da nossa janela víamos colchões e móveis boiando na enchente. Com toda a dificuldade, Rio Bonito ainda é muito para se morar”.