Evaldo Nascimento

“-- Bom dia a todos! Eu sou Stephanie, aluna do 2º ano de Formação Geral do Colégio Estadual São Sebastião; -- bom dia a todas, eu sou Ruan, aluno do 3º ano do Curso Normal do C.E. Sérvulo Mello. É com imenso prazer que estamos aqui reunidos para o Iº Seminário Integrado de Saúde de Silva Jardim. Ele é um Projeto que envolve três assuntos que afetam não só a Saúde, mas a todas as políticas públicas e a sociedade como um todo: gravidez na adolescência, drogas e violência intrafamiliar”. A consciente e segura apresentação feita pelo casal de jovens do evento promovido pela Secretaria municipal de Saúde e pela Estratégia de Saúde da Família (ESF), no ginásio poliesportivo Jorge Mendonça, na sexta-feira (14), ilustra bem o objetivo do evento, destinado principalmente a adolescentes, onde se fala abertamente de gravidez indesejável, doenças sexualmente transmissíveis, uso de preservativos, consumo de maconha/cocaína e abuso sexual na infância.

-- Este evento é mais uma vitória nossa e significa um avanço nas ações que desenvolvemos; por isso sugiro que todos fiquem de olhos e ouvidos bem abertos para o que será passado – orienta o Secretário municipal de Saúde, Isaías Francisco Ferreira da Silva, na abertura do Seminário, seguido por Jaqueline Cardoso, coordenadora do Programa de Saúde Familiar (PSF), que reitera ser a iniciativa mais uma voltada para a preocupação com a Saúde.

E as orientações começam realmente pra valer logo na primeira palestra, intitulada “Drogas? Tenho mais o que fazer!” O ex-viciado em cocaína identificado como “Cabeção”, da instituição de recuperação de dependentes químicos Maranathá, de Itaboraí, ligada a Igreja Canção Nova, dá um contundente depoimento: “em determinado momento da minha juventude eu me casei com a cocaína, após também ter começado com o álcool já nos tempos de escola. Perdi a credibilidade com a minha esposa e filhos; e fiquei uns nove meses na casa de recuperação da Maranathá e, embora não use mais drogas, ainda sou um dependente químico, pois isto é uma doença incurável. Por isto não posso tomar sequer um copo de cerveja, senão corro o risco de acabar na boca-de-fumo”, confessa ele, que hoje é monitor da entidade.

Mas a pancada não pára por aí: após Cabeção, fala o conselheiro em dependência química Antônio Lisboa, mais conhecido como “Dedeco”, da mesma instituição. Atribuindo grande parte da culpa pelo fato de muita gente enveredar pelo mundo das drogas ao “Encardido”, apelido que usa para não pronunciar o nome do diabo, ele conta que também começou com bebidas alcoólicas (uma espécie de droga lícita), aos 14 anos. Mas logo passou para a maconha e a cocaína. Dedeco relata que se casou com uma professora com a qual teve uma filha que nasceu com várias anomalias e uma síndrome raríssima: “embora eu não quisesse acreditar, tenho que admitir que tais problemas genéticos certamente foram causados pelo meu excessivo consumo de drogas”, reconhece. Lembra, ainda, que a sua segunda filha quase morreu afogada numa piscina na casa de um amigo, enquanto ele, totalmente drogado, ‘esqueceu-se’ de tomar conta dela.

Antes, porém, de Cabeção e Dedeco, outra integrante da equipe da Maranathá, que, entretanto, não se confessa dependente química, dá uma amaciada na platéia. Ela estimula a participação principalmente dos jovens na palestra e traça um panorama geral dos perigos representados pelas drogas, assim como as diversas formas de sedução para o consumo. “Muitos jovens pensam que precisam usar alguma substância química para se divertirem, paquerarem e se integrarem nos grupinhos. Aí começam com o álcool e vão aumentando a quantidade para conseguir mais ‘coragem’, passando para drogas como a maconha e a cocaína”, alerta ela, lembrando que os organismos das pessoas são diferentes e o álcool, por exemplo, que parece não fazer mal em uns, pode causar forte dependência em outros.

Já na palestra “Gravidez é coisa pra gente grande”, a enfermeira Márcia Vaz Nogueira alerta sobre a melhor idade para a concepção, pois, segundo ela, entre outras limitações, a adolescente ainda não está física, emocional e psicologicamente formada para isto; enquanto que o rapaz precisa assumir responsabilidades fora da época adequada. “A gravidez na adolescência atrapalha os estudos, o trabalho, a diversão, o projeto de vida, o crescimento e o desenvolvimento dos adolescentes de modo geral. Além disso, um casal de adolescentes não possui o suporte familiar necessário para cuidar e promover o bem estar de uma criança”, alerta, ressaltando que existem muitas formas de usufruir o sexo sem engravidar.

Fechando o ciclo de palestras pela manhã (os mesmos temas seriam discutidos com mais profundidade durante a tarde), a médica psicanalista Dirce de Sá Freire, com o tema “Violência Familiar”, destaca o abuso sexual na infância, que tantas crianças sofrem nas suas próprias casas, assim como a sua influência na fase adulta de suas vidas: “muitas crianças vítimas de maus tratos se tornam adultos agressores”, informa ela, assegurando que, entretanto, as crianças e/ou adolescentes nunca são culpados pelos abusos sexuais que sofrem. (Veja esta matéria com mais detalhes e fotos no site: www.silvajardim.rj.gov.br)