
O transporte público tem solução?
Na primeira sessão da Câmara Municipal de Vereadores de Rio Bonito, no último dia 17, o vereador Saulo Borges (PTB), fez um requerimento interessante. Apesar de ser um tema polêmico e complexo, onde estão envolvidos diversos interesses, eu não posso deixar de fazer uma reflexão sobre o tema. O vereador pediu ao poder Executivo, a cópia do processo que autorizou o aumento das passagens dos ônibus municipais. Segundo o ele, a intenção é saber se os valores das passagens estão de acordo com as condições econômicas dos munícipes. Eu confesso que fiquei entusiasmado com o pedido do parlamentar e estou aguardando ansiosamente os próximos capítulos dessa novela.
Louvo a iniciativa de Saulo Borges, porque o assunto transporte público é um dos tabus da administração pública. Aliás, fica muito nítido que as pessoas não gostam de abordar esse tema com franqueza. Tanto é assim, que eu nunca ouvi uma explicação clara sobre o funcionamento dessas concessões – municipais ou intermunicipais. Eu digo, aquelas perguntas que ninguém responde, como: “quando as concessões começam e terminam, e quais são os critérios adotados para a cobrança das tarifas?”. Para se ter uma idéia, atualmente o cidadão que se desloca para o município de Silva Jardim, desembolsa um valor menor do que aquele que vai para o bairro da Praça Cruzeiro. Não é estranho?
Penso que finalmente alguém resolveu colocar o dedo nessa ferida. Contudo, espero que não seja apenas uma artimanha para conseguir chamar a atenção dos empresários do setor. Eu não tenho dúvida que o vereador tem consciência da complicação que é mexer nessa “caixa preta”. Afinal, aborrecer esses empresários significa perder polpudas contribuições de campanha e ficar sem os tradicionais ônibus que transportam cabos eleitorais para os comícios. Além disso, também podem estar com os dias contados, os coletivos emprestados para transportar pessoas a funerais, aniversários e casamentos de parentes. Isso sem mencionar as excursões de igrejas e o transporte dos times de futebol e suas torcidas.
Durante a fala do parlamentar, lembrei que na comunidade do programa “O Tempo em Rio Bonito”, o membro Tiago Melo disse que estava indignado com o transporte público do município. Segundo ele, “as vans fazem o horário que querem, e os ônibus, anunciados como diretos, não respeitam essa informação e param durante todo o trajeto” – realmente isso é um saco. Tiago concluiu afirmando que “não tem cabimento uma viajem para Niterói durar entre 1h30min e 2h” – e ele tem toda razão.
A questão do transporte público me intriga também em outros aspectos. Por exemplo: a tarifa até Boa Esperança, num coletivo da empresa São Geraldo custa R$ 1,80. Porém, o mesmo trajeto pela empresa Rio Ita, nos ônibus que fazem as linhas de Araruama e Saquarema, custa R$ 2,40. Por que essa diferença? São as cores do veículo? Um tem ar refrigerado e outro não? Uma empresa oferece serviços de bordo e a outra não? Quem fiscaliza isso? Seria essa confusão motivada pela ausência da nossa sonhada Secretaria Municipal de Transportes? Mas quem seria o secretário? Um técnico ou alguém para “encher linguiça”?
Em minha opinião, enquanto existir parceria entre os políticos e os empresários desse ramo, nós enfrentaremos essa triste realidade. O valor exorbitante das tarifas é uma compensação pelos ônibus “gentilmente emprestados” para inúmeros fins. O que o político não sabe – ou finge não saber – é que o principal objetivo dessas parcerias é sensibilizá-los a não abrir outras concessões que permitam a concorrência no setor. Você acha que os caras vão degolar a “galinha dos ovos de ouro”?
Só para lembrar, nos EUA, o país é todo picotado por ferrovias. Já no Brasil, as rodovias prevalecem e a malha ferroviária é sucateada para que tenhamos a falsa impressão que elas não funcionam. Faço então as seguintes reflexões: tem como cobrar pedágio de trem? Os vagões puxados por uma locomotiva representam quantos caminhões e ônibus? Menos desses veículos nas estradas representa menos emissão de gases poluentes e um menor desgaste das rodovias. Mas infelizmente, isso não interessa a máfia, digo a indústria do combustível, da privatização de estradas e do transporte coletivo. Penso que um menor tráfego de veículos significa menos acidentes e consequentemente um menor número de pessoas inválidas e mortas.
Alguns argumentam que o governo se preocupa com o emprego dos caminhoneiros e motoristas de ônibus. Eu particularmente acho que essa argumentação é “fajuta”. Digo isso, porque mais preocupante é o estado de saúde desses profissionais, que muito cedo estão hipertensos, estressados, diabéticos e obesos, devido aos muitos arrebites que os mantém acordados. E detalhe, como são profissões que escravizam o indivíduo – sem fim de semana, feriado, dia santo etc. –, eles não têm tempo de cuidar da saúde. Conheço motoristas que estão cegos pelo diabetes e outros sem as pernas devido a doenças circulatórias (varizes). Isso também não é preocupante?