
Uma alienação “fenomenal”!
No dia 17 de maior de 2008 escrevi um artigo e dei o seguinte título: “Uma hipocrisia fenomenal”. Lembram dele? Na ocasião, eu disse que estava assustado com a quantidade de gente que torcia contra o craque Ronaldo ‘fenômeno’, porque ele se envolveu com travestis. Na época, eu comentei que os discursos sobre o acontecido eram sempre proferidos da tribuna da ‘moral e da virtude’, e Ronaldo era sempre condenado. Dez meses depois, ainda bem, as pessoas esqueceram a preferência sexual do jogador e ele reaparece na mídia com o brilho de um raio e com a glória de um ser divino.
A mídia está dando tanto destaque ao gol que Ronaldo fez contra o Palmeiras, no último domingo (8), que eu sou obrigado a fazer a seguinte advertência aos colegas de jornalismo da grande imprensa: “menos, gente! Assim também não!”. Aliás, desde que o jogador retornou aos gramados de maneira oficial, no último dia 4, quando defendeu o Corinthians contra o Itumbiara, a imprensa não tem mais assunto. Só o “fenômeno”! Bom, todos nós ficamos felizes com o seu retorno, mas esse oba-oba que a mídia está fazendo com o gol de Ronaldo, no último domingo, me faz lembrar o texto “Sociedade do Espetáculo”, escrito pelo filósofo francês Gui Debord.
O ponto central da teoria do filósofo é que a alienação da sociedade é estimulada pela emoção contida nos espetáculos de qualquer natureza, inclusive nas praças esportivas, onde os shows pirotécnicos e as grandes performances coreográficas apresentados na abertura e no fechamento de eventos como Olimpíadas, por exemplo, são acontecimentos mais dispendiosos e esperados que os próprios jogos em si. Assim, a serviço da classe dominante, a mídia utiliza a tese romana do “Pão e Circo” para domesticar o povo e fazer um “gol a seu favor”. Segundo Debord, um estudioso das teorias de Karl Marx, esse é um dos modos capitalistas de organização social. Ele afirma ainda, que a sociedade do espetáculo é um processo moderno para a luta de classes (burguesia x proletariado), porque através do espetáculo e da futilidade, a classe dominante exerce controle sobre os dominados.
Eu confesso que estou de acordo com Debord, e vou tentar mostrar que ele tem razão. Podemos fazer isso, através de uma rápida análise do noticiário da grande mídia, que utiliza o gol de Ronaldo para fazer você e eu não analisarmos a armadilha que estão armando para desacreditar o delegado Federal, Protógenes Queiróz, que depois de meter vários bandidos ricos na cadeia – alegria de pobre dura pouco – está sendo apresentado pela imprensa como bandido (essa tal de Veja!). Digo isso, porque o nosso Protógenes, que já andou aqui em Rio Bonito, na década de 90, e trabalhou no processo que afastou o ex-prefeito Aires Abdalla, se tornou “persona non grata” para os figurões do Brasil.
Entre os investigados pelo delegado, temos apenas jogadores de “Terceira Divisão”: o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Gilmar Mendes, o ex-presidente da República, Fernando Henrique Cardoso, o governador de São Paulo, José Serra, o ex-ministro José Dirceu, os atuais ministros Dilma Rousseff e Mangabeira Unger e o chefe de gabinete da Presidência, Gilberto Carvalho – que beleza, hein!? Além desses, também teriam sido investigados por Protógenes, os senadores Heráclito Fortes e Antonio Carlos Magalhães Júnior. Você daria uma mala de dinheiro para essas pessoas guardarem? Colocaria a sua casa ou o seu carro no nome de um desses? Viu só?
Outro fato que merecia um amplo debate pela sociedade brasileira, mas o gol de Ronaldo parece ser mais importante, aconteceu em Recife. Na terra do frevo, o arcebispo dom José Cardoso Sobrinho, anunciou a excomunhão das pessoas que provocaram o aborto da menina de nove anos, que engravidou de gêmeos, depois de ser violentada pelo padrasto (na quinta-feira a igreja anunciou que eles não foram excomungados). Embora a legislação brasileira permita o aborto em casos de estupro, e, para os médicos, a menina tinha risco de perder a vida, a igreja ficou muito zangada com os responsáveis por tal ação e de um “cartão vermelho” para aqueles que concordaram e fizeram o aborto. Só faltou a fogueira e o cadafalso!
Antes de dar continuidade ao assunto, devo esclarecer aos leitores, que eu, particularmente, acho que é pecado fazer um aborto e futuramente prometo retornar a esse assunto. Contudo, o Estado é laico – pelo menos é o que se lê na Constituição Federal – e valores religiosos não podem influenciar nas decisões do país. Concordo com a indignação de quem é religioso, mas o Estado não pode ser dirigido por essa ou aquela religião. Para os desinformados, é bom lembrar que no passado a união política e religiosa fez um “gol contra” na história da humanidade: a Idade Média. Nessa época, milhares de pessoas foram mortas porque discordavam dos dogmas católicos.
Eu não sei se você percebeu quantos temas polêmicos poderiam ser discutidos e esclarecidos através da mídia, se ela apresentasse um mínimo de seriedade e compromisso social. Porém, a impressão que se tem é que o gol de Ronaldo é mais importante que a redução da taxa de juros. É mais urgente do que o debate sobre a utilização das células tronco. É mais necessário que a reforma política, previdenciária e tributária, sobretudo, mais interessante que a implantação de políticas públicas que devolvam ao brasileiro um país que tenha segurança, transporte, saúde, educação, desenvolvimento sustentável, entre outros “gols de placa”.