“Que tens dormente?”

No dia 10 de dezembro de 2008, nós riobonitenses ficamos estarrecidos, quando soubemos da notícia, que bandidos dispararam cerca de 80 tiros em direção ao Batalhão de Polícia Rodoviária (BPRv), do bairro de Boa Esperança, no 2º Distrito de Rio Bonito. A intenção dos bandidos, segundo o delegado titular da 119ª DP José Pedro Costa da Silva, era roubar as armas dos policiais. Cinco homens participaram da ação. Ao redor do posto, a polícia encontrou diversas munições de pistolas calibre 9 mm e PT 40, e de fuzil 565. Quatro policiais estavam na cabine, e um deles, o sargento Walace Loureiro (32), foi ferido de raspão, chegando a ser atendido no Hospital Regional Darcy Vargas.

Três meses depois desse fato lamentável, um novo ataque nos enche de pavor e insegurança. Eu me refiro ao atentado contra os policiais do Destacamento de Policiamento Ostensivo (DPO), de Sambaetiba, em Itaboraí, na madrugada da última sexta-feira, 13 – data apropriada para os supersticiosos. Os disparos atingiram o sargento Yolando Flávio da Silva (38), que morreu No Hospital Municipal Desembargador Leal Júnior, de Itaboraí. Também foi atingido o cabo Robson da Silva Reis (35), mas esse sobreviveu por não ter sido baleado em áreas vitais.

No dia seguinte, os bandidos foram presos durante uma grande operação que mobilizou cerca de 200 policiais. Segundo a polícia, os bandidos são milicianos da Zona Oeste do Rio, que estariam tentando tomar a Reta Velha, que é controlada pelo Comando Vermelho. Os integrantes da milícia usavam como QG, uma propriedade com casa, campo de futebol, quadra de vôlei, churrasqueira, piscina e um lago, no sítio Shangri-lá, a cerca de 4 quilômetros do DPO. Na propriedade, os policiais também encontraram máquinas de caraoquê e fliperama.

Depois de tais acontecimentos, ainda encontro gente tentando me fazer acreditar que a nossa região é tranquila, que nossa cidade é um paraíso e, sobretudo que eu devo ficar calado, “para não alarmar a população”. Que gente “medíocre”! Estou pensando em convidar essas pessoas – eles querem tapar o sol com a peneira – a me contar estórias de Branca de Neve e os Sete Anões, Cinderela, Gato de Botas, João e o Pé de Feijão, entre outras, para me fazer dormir. Essas pessoas estão “fraudando” a nossa história.

Vou explicar a utilização do termo “fraude”. Uso essa expressão para classificar as pessoas que tem como hábito, modificar os acontecimentos para que a verdade apareça. Nas últimas décadas, acontecimentos sociais, políticos e econômicos, foram modificados porque grande parte da classe dominante, ou é cúmplice, ou tem rabo preso, ou é conivente com o enredo perverso dos fatos. Às vezes ela também se acovarda – falam somente pelas costas – e quase sempre é desinteressada, atendendo a máxima do “não é meu parente, que se arrebente”. Isso é público e notório! Mas a maioria finge que não vê. E quem vê, e bota a boca no trombone, logo é desqualificado e classificado como um maluco e/ou reacionário.

Quando eu contemplo essa situação, lembro da história bíblica de Jonas, o profeta fujão. Ele deveria anunciar a destruição de uma cidade da antiguidade chamada Nínive, mas fugiu de navio para outra cidade, Tárcis. Segundo o relato, Deus enviou uma grande tempestade e a embarcação estava quase naufragando, quando os viajantes decidiram, de acordo com a religião de cada um, pedir proteção aos seus deuses. Enquanto esse corre-corre acontecia, o cara de pau do Jonas dormia tranquilamente no porão da embarcação. Um tripulante o encontrou e perguntou: “Que tens dormente? Levanta-te, clama ao teu Deus! Talvez assim ele se lembre de nós para que não pereçamos!”.

Em nosso país, a democracia é representativa, mas os nossos representantes estão dormindo no porão da embarcação. Por isso, quando eu vejo um cidadão perder a vida em decorrência do mau funcionamento de um dos nossos direitos – nesse caso a segurança –, só me resta perguntar: “Que tens dormente? Levanta-te... Para que não pereçamos”. Penso que é muito fácil culpar o Complexo Petroquímico do Estado do Rio de Janeiro (Comperj), pela chegada da violência. E afirmo com tranqüilidade: não é bem assim, porque quando o Comperj chegou a violência já estava. E estava, porque aqueles que estão no poder, têm falhado no dever de conceder direitos à população: saúde, emprego, segurança, educação, cultura, transporte, moradia, lazer etc.