
Por que a crise econômica nos afeta?
No dia 21 de fevereiro de 1848, os fundadores do pensamento socialista científico, Karl Marx e Friedrich Engels, escreveram o Manifesto Comunista, que junto com o livro “O Capital” é um divisor de águas no pensamento político e social do mundo moderno. O manifesto começa assim: “um espectro ronda a Europa, o espectro do comunismo...”. Bom, a partir daí, quem condena ou critica a voracidade e o consumismo do capitalismo, geralmente é rotulado de comunista. Essa introdução foi necessária, porque não se pode falar de crise econômica mundial, sem anteriormente tocar nesse aspecto histórico. Aliás, essa crise é o resultado da conhecida queda de braço entre o capital e o trabalho, estudado a exaustão pelos dois pensadores.
Assim como você, eu sempre tive uma curiosidade: “porque uma crise que acontece do outro lado do mundo interfere em nossas vidas aqui no Brasil?” Segundo o sociólogo polonês Zygmunt Bauman, isso acontece porque o capital destrói a soberania do estado, através da globalização. O sociólogo argumenta também, que a característica virtual do capital não combina com a peculiaridade material do estado, que perde o controle sobre o seu território através de um instrumento do capital, que conhecemos como mercado. Através desse instrumento, os países mais fortes criaram organismos internacionais como FMI, BID, ONU etc., que são mais soberanos que o estado.
Para compreendermos essa lógica, precisamos saber que a soberania do estado é baseada num tripé. Mas como seria esse tripé? Bom, ele é formado por três elementos: a soberania econômica, que além de organizar as finanças do estado, permite a gerência da economia do país; a soberania militar, que dá ao estado condições de defender o seu território interna e/ou externamente; e a soberania cultural, que cuida da identidade nacional. Segundo Bauman, a globalização destrói esse tripé. Quando o mercado não consegue dominar a política econômica, militar e cultural de um país, ele faz através dos organismos internacionais ou através de invasões militares, como aconteceu no Iraque.
O estado deve proteger as propriedades do seu território, mas como o mercado é virtual, ele não pode ser controlado ou capturado. Aliás, o mercado vem quando quer, vai para onde quer e vai embora quando quer. O estado não interfere nesse processo por impotência. O mercado e o capital têm interesse apenas na manutenção da soberania militar, para que o território seja explorado com segurança. Esse foi o motivo que levou o EUA a patrocinar os golpes militares no Brasil e em vários países da América do Sul nos anos 60. O objetivo era afetar a soberania nacional desses países.
Ainda sentimos a interferência do EUA em larga escala no Brasil. A economia foi dolarizada, mas o dólar não foi implantado como moeda oficial da nação. Porque assim, continuávamos sendo “mais baratos e menos valorizados” em todos os aspectos. Isso permitiu a invasão das multinacionais em nosso território. As empresas domésticas foram desvalorizadas e salvaram-se apenas aquelas que recorreram ao capital estrangeiro e permitiram a presença americana no seu quadro de executivos.
Já na questão militar, os americanos levaram os generais a acreditar que os movimentos libertários, através dos seus partidos comunistas e socialistas dominariam o país e isso seria terrível. Na verdade, o que os ianques queriam era impedir que a América Latina deixasse de ser o seu bordel particular. A mídia encobre essa versão dos fatos e, para piorar, apresenta aqueles que decidiram lutar contra essa situação, como bandidos e terroristas. É fácil vermos brasileiros como Carlos Lamarca, Carlos Marighuella, Stuart Angel, padre Antonio Henrique, Vladimir Herzog, entre outros que foram assinados pelos carrascos do DOPS, DOI-COD e OBAN, serem apresentados como inimigos do país.
O tripé da cultura, esse foi totalmente corrompido. Os pensadores, os artistas, as mentes privilegiadas, alguns políticos, jornalistas que não se venderam para os “milicos”, estudantes, entre outros, foram caçados, trucidados, exilados e/ou mortos. No lugar da cultura brasileira implantaram o “American Way of Life” – jeito de viver americano. O cinema Hollywoodiano dominou e domina as telas brasileiras disseminando nas mentes, sobretudo das crianças, que temos que ser “estadunidenses”. O samba, o futebol e os nossos artistas, como o rei, Roberto Carlos, por exemplo, foram transformados em garotos propaganda das empresas americanas.
Sabemos que as empresas são movidas pelos seus interesses, e também sabemos que trabalho e consumo são as principais ferramentas da elite dominante. Quem pertence a essa classe não trabalha, mas faz trabalhar aqueles que estão na parte inferior da pirâmide social. Quem está na base da pirâmide tem uma vida precária, alienada, é explorado e vive numa eterna imobilidade. O estado também é refém dessa situação, porque ele é o único que pode intervir nessa lógica perversa. Contudo, quando ele tenta interferir, o capital foge para outro país, o que gera a tal “crise econômica”, que não é um problema dos pobres dominados, mas dos ricos dominantes, que para manter as suas futilidades, não querem abrir mão da sua vida mansa. Isso potencializa e amplia a crise. E o estado nada pode fazer se não o dólar vai embora!