
Até o cabelo?!
Debaixo dos caracóis dos seus cabelos
Uma historia pra contar de um mundo tão distante
Debaixo dos caracóis dos seus cabelos
Um soluço e a vontade de ficar mais um instante...
Essa é uma das muitas músicas composta pela dupla Erasmo e Roberto (o Tremendão e o Rei). A letra dá a entender que esses dois, assim como eu e outros brasileiros, são fãs das mulheres que cultivam longos cabelos. Bom, se naquele tempo as portadoras de longas madeixas usavam essa peculiaridade como instrumento de sedução, atualmente essa beleza não está atraindo apenas os românticos de plantão. É que os criminosos criaram um novo tipo de crime: “o roubo do cabelo”.
A prova dessa triste tendência é uma notícia que vem de Franca, cidade que está a 401 km da capital paulista, onde a Polícia Civil investiga o roubo do cabelo da adolescente Franciele Cardoso Pardinho, de 17 anos. Ela saiu de casa às 8h da manhã para ir à igreja e foi atacada quando estava a um quarteirão de sua casa. A novidade é que os ladrões não queriam nem dinheiro, nem celular, mas o cabelo da vítima, que alcançava a cintura. Eles cortaram o cabelo da adolescente um pouco acima dos ombros.
A família registrou o roubo na delegacia da cidade. A vítima não sabe o instrumento que foi usado para cortar o seu cabelo e também não conseguiu ver o rosto do assaltante. A população de Franca está indignada. Franciele já foi ao cabeleireiro, fez um corte moderno, repicado, mas ainda não se acostumou ao novo visual. Penso que não está faltando mais nada para a gatunagem fazer! Eu fico me perguntando: “o que leva um sujeito a roubar o cabelo de alguém?”.
Bom, além da falta de trabalho e oportunidades, coisas comuns no nosso país; da falta de disposição para procurar emprego – grande parte desses vagabundos não gosta de trabalho – e a falência dos instrumentos de segurança, tem ainda a tradicional insatisfação humana com o que ele tem e com o que ele é. O problema e que para incentivar o consumo desenfreado e exacerbado das pessoas, a mídia oferece o tempo todo novidades, modismos, novas tendências e a cobiçada formosura da TV, que para as pessoas comuns, ou é inalcançável ou é muito cara.
Eu já escrevi outro dia sobre isso, mas devo lembrar que, sobretudo as mulheres, constantemente são bombardeadas pelos veículos de comunicação de massa, com propaganda de novos cremes, novas roupas, novos modelos de sapato e logicamente novos penteados. Aliás, a moda exige que as mulheres sejam eternas meninas. As vovós de colo macio com cheiro de alfazema estão em extinção. Por quê? Simples! Elas são obrigadas a se transformarem em malhadas senhoras, que como adolescentes devem freqüentar baladas e trocar de namorado toda semana. Já os homens para estar na moda precisam ser eternos e infantis adolescentes, sempre preocupados em exibir o corpo malhado e os seus carrões de último tipo.
Eu não tenho dúvida que os cabelos da Franciele foram adquiridos por uma bela quantia por algum cabeleireiro. Também tenho certeza que esses cabelos serão aplicados em alguma cabecinha que estiver sobre o corpo de alguém que tenha condições de pagar três ou quatro vezes mais que a importância paga ao ladrão – nada contra os cabeleireiros, por favor! Os sociólogos são unânimes quando afirmam que essa busca desvairada pela juventude e pelo belo tem como objetivo três coisas, justificar, encobrir e, sobretudo, estimular a futilidade da natureza humana que não prioriza o ser, mas o estar.