Flávio Azevedo
As mudanças propostas pelo governo do Estado para o transporte alternativo deflagrou uma queda de braço entre o governo, que se baseia em estudos técnicos para justificar as mudanças, e a categoria, que acusa o governo de estar legislando a favor dos interesses da Federação das Empresas de Transporte de Passageiros do Estado do Rio de Janeiro (Fetranspor). De acordo com o representante da Federação das Cooperativas dos Transportes Alternativos Legalizados (Fecotral), o advogado Francisco Coelho, a Fetranspor seria colaboradora de campanha do governador Sérgio Cabral, que estaria favorecendo os empresários do setor.
Em Rio Bonito, o representante da cooperativa Cooperit, Robson Amaral da Silva, o Robson da Van, diz que a decisão do governo do estado está prejudicando os 40 topiqueiros da cidade. Aos 38 anos, Robson está no setor há 13, e se orgulha de dizer que foi o primeiro topiqueiro riobonitense a se regularizar. Não com revolta, mas com tristeza, ele se queixa que alguns setores acusam a categoria de serem ligados a milícias. Contudo, ele lembra que os milicianos foram todos presos. “Aqui em Rio Bonito, por exemplo, todos me conhecem e sabem que eu não sou miliciano”, frisa o topiqueiro, que sempre trabalhou na linha da Praça XV.
Com a nova regulamentação, as 14 vans que faziam a linha de Alcântara diminuíram para cinco. Já no trajeto Praça XV, o governo autorizou apenas cinco vans. Menos três carros, já que antes da nova legislação, 8 veículos faziam esse itinerário. Para o município de Silva Jardim, apenas 2 carros estão percorrendo o trajeto, anteriormente eram 14.
Desemprego
Para Robson da Van, em Rio Bonito cerca de 150 famílias vão ficar sem ter o seu sustento. Segundo ele, além do dono do veículo têm o motorista, o cobrador e os profissionais que trabalham nas bases em cada ponto de van. “O cálculo é simples: os proprietários de van são 40. Mas não é só isso, temos um motorista para cada carro, ou seja, 80 pessoas. Se somarmos a esses 80, mais 20 cobradores, vamos chegar a 100 pessoas. Mas ainda temos os demais prestadores de serviço, que trabalham nas bases. Ou seja, miseravelmente, 150 chefes de família vão ficar sem ter de onde tirar o pão de cada dia”, prevê.
O topiqueiro lembrou também, que ainda existem as oficinas, os profissionais que fazem a manutenção dos veículos, os postos de combustível, porque o carro não anda sem diesel, “sem falar na pessoa que você contrata para fazer a limpeza do carro. Ou seja, aqui em Rio Bonito, indiretamente várias pessoas serão prejudicadas”, lamentou.
Prejuízos
O topiqueiro comentou que o prejuízo não é só financeiro, mas também de saúde, porque o trabalhador fica psicologicamente enfermo. “Nós temos contas e prestações para pagar. Com as mudanças, isso não está sendo possível. Tem muita gente que não sabe o que fazer com as dívidas. Eu tenho encontrado alguns amigos chorando”. Ainda de acordo com Robson da Van, no mês de junho, aconteceram quatro manifestações no Rio de Janeiro, e como ele trabalha nesse itinerário teve que participar.
– Na verdade, deixamos de trabalhar quatro dias e isso representa prejuízo, porque é como se estivéssemos com o nosso comércio fechado. Se o faturamento diário for de R$ 250,00, quatro dias sem trabalho representa um prejuízo de R$ 1 mil no mês. Para quem paga uma prestação de R$ 2,5 mil, é um desfalque financeiro considerável – disse.
Além dos prejuízos com o carro, Robson da Van lembra que ainda tem o seguro obrigatório e a apólice do seguro de Acidente Pessoal de Passageiros (APP), que segundo o topiqueiro garante ao acidentado R$ 42 mil de indenização em caso de acidente. Ele lembra que o veículo só pode trabalhar se tem esse seguro. “Se os fiscais do Departamento de Transportes Rodoviários do Estado do Rio de Janeiro (Detro) encontrar alguém irregular, o carro é apreendido”.
Aumento da passagem
Uma das mudanças que estão sendo mais reclamadas por topiqueiros e usuários é o provável reajuste da passagem de Silva Jardim, que hoje custa R$ 1, para os ônibus e R$ 1,50 para as vans. De acordo com Robson da Van, na última semana, os representantes do Detro estiveram em Rio Bonito. Durante a visita, eles teriam informado aos topiqueiros da linha de Silva Jardim, que a tarifa para o município vizinho deverá ser de R$ 5,80. Robson destaca, que “como a diferença do valor dos ônibus para as vans deve ser de 20%, a tarifa do ônibus deve girar em torno de R$ 4,60”. Seria um reajuste superior a 400% para o usuário.
O topiqueiro Robson da Van acredita que o governo estadual tem que ouvir todas as partes interessadas, “porque um negócio só é bom, quando todos ficam satisfeitos”. Ele acredita que o governo, está trabalhando com informações que não correspondem com a realidade – o número de passageiros que o estado tem em mãos foi fornecido pelas empresas de ônibus. “Se a empresa carrega 100 passageiros, ela logicamente vai informar que carrega 20. Por conta disso, o governo está diminuindo de 1.805 para 614, as linhas para as vans. Ou seja, cerca de 1,2 mil carros sairão de circulação”, frisou.
Segundo o topiqueiro, a retirada de mais de mil veículos alternativos das rodovias vai gerar dois fenômenos: “o aumento do valor das tarifas, que já não é barato, e ônibus superlotados”. Ele se baseia em cálculos das cooperativas de transporte alternativo. De acordo com esses cálculos, cerca de 210 mil passageiros são transportados diariamente pelos veículos alternativos em todo o estado. “São mais 210 mil pessoas que passarão a utilizar o serviço dos ônibus. Ou seja, será o caos”, alerta Robson.
Dois pesos duas medidas
Se os veículos alternativos sempre tiveram que lidar com uma forte fiscalização, os ônibus têm a vida um pouco mais facilitada. Para provar essa afirmativa, Robson da Van lembra que se a fiscalização encontra alguém viajando no banquinho, “o que não é certo”, esse passageiro tem que descer e o motorista é multado em cerca de R$ 1,8 mil. “Apesar disso, nós descobrimos que existem vários ônibus trafegando de forma irregular. No documento, ele é amarelo, mas está circulando de outra cor. A verdade é que o governo quer exterminar com as vans”, concluiu o topiqueiro.