Lívia Louzada

Aberta desde 1950, na rua Desembargador Admário Alves de Mendonça, nº 41, no Centro da cidade, a empresa Fábrica de Foice Bernardino A. Santos, é a única ferraria de Rio Bonito e da região que ainda resiste aos avanços da indústria. Comandada pelo próprio Bernardino, ferreiro ainda atuante, de 92 anos, o estabelecimento recebe clientes de vários municípios, como: Cabo Frio, Macaé, Saquarema e São Gonçalo, que vão atrás do trabalho artesanal.

Pai de três filhos, duas mulheres e um homem, já morto, mas que lhe renderam seis netos e dois bisnetos, Seu Bernardino da Foice, como é mais conhecido, nasceu na localidade de Catimbau, em Rio Bonito e começou a trabalhar como ferreiro aos 17 anos, na ferraria de Oscar Nunes da Silva, também em Catimbau, onde aprendeu a arte de fazer foices e outros utensílios, e pôde conhecer melhor o homem que seis anos depois, viria a ser seu sogro. Apesar da idade avançada, o ferreiro mantém a mesma vitalidade de quando iniciou no ofício.

Em 1938, já com 21 anos, e noivo de sua atual esposa, Seu Bernardino foi servir o exército, onde ficou durante um ano. Quando saiu, voltou a trabalhar na ferraria do sogro, onde já trabalhava seu irmão, Godofredo Menezes dos Santos, que alguns anos depois assumiu o estabelecimento e o trouxe, em 1942 para Rio Bonito, na Av. Manuel Duarte (perto do Abatedouro Rio Bonito), onde ele também trabalhou. Mas depois de aproximadamente oito anos, o lugar foi vendido e o ele decidiu abrir sua própria ferraria, em 1950. “Era o que eu sabia fazer, e fazia bem, ‘Seu Oscar’ me ensinou todos os segredos, e outros eu aprendi sozinho”, diz o ferreiro que mantém a oficina aberta no mesmo lugar em que a abriu há 59 anos atrás.

O próprio negócio

Segundo o ferreiro, o começo foi um pouco difícil, pois teve que ensinar a arte do manejo com ferro aos funcionários que passaram pela ferraria, inclusive para seu filho, Arin, que ajudou o pai dos 12 aos 18 anos. Durante todo o tempo, o trabalho na empresa sustentou a sua família.

Atualmente, a fábrica tem um único funcionário, além do seu proprietário, diferente de antes, quando cinco pessoas exerciam o ofício. Seu Bernardino conta que se orgulha da profissão que tem e que nunca pensou, mesmo quando criança, em exercer outro ofício. Um dos orgulhos do patriarca da família Santos é ter tido tempo de passar o que aprendeu para o filho.

“Arin trabalhou o quanto pôde, mas fez um concurso e foi trabalhar fora, o que não achei ruim. As pessoas têm que evoluir e a profissão de ferreiro já está ultrapassada. Hoje, não se ganha dinheiro como antigamente”. Atualmente, quem segue os passos do experiente ferreiro é Feliciano Rodrigues da Silva, de 46 anos, que começou a trabalhar com seu Bernardino, quando tinha 18 anos. Segundo Feliciano, na época que começou a trabalhar na empresa, ele não sabia a diferença entre ferro e aço:

“Foi trabalhando e vendo eles (seu Bernardino e um antigo funcionário) trabalharem, que eu aprendi tudo”, conta.

Seu Bernardino reclama que depois do Plano Real, as coisas ficaram difíceis. Hoje há 50% menos de encomendas do que tinha antes. Ele conta que quando as grandes indústrias começaram a produzir ferramentas de corte, a ferraria deixou de ser procurada. “As pessoas preferem comprar na loja, mas ainda há aqueles clientes que só aceitam foice feita artesanalmente”.

O diferencial

A forma como o ferreiro prepara as ferramentas envolve vários utensílios e máquinas, como as bigornas, usadas também como apoio para dar forma aos instrumentos; o martelete, usado para abrir o aço; esmeril, para fazer o corte da ferramenta; a furadeira de ferro; um motor para fazer as máquinas funcionarem, e principalmente um forno que atinge altas temperaturas, que serve para forjar o ferro, ou seja, deixá-lo vermelho para que possa ser moldado.

Seu Bernardino conta que há muitas diferenças entre as ferramentas industriais e as que ele faz artesanalmente, como por exemplo, a utilização de chifre de boi para sentir o ponto do aço, para saber a temperatura certa.

“As ferramentas que são vendidas por aí, são fora do ponto, mas como são pintadas, as pessoas compram achando que são boas, mas quando vêem que não funcionam direito, elas voltam pra cá”, diverte-se.