
O colapso do transporte público
Na última quarta-feira (9), o governador Sérgio Cabral Filho (PMDB), assinou os contratos de permissão das vans licitadas pelo Departamento de Transportes Rodoviários (Detro) para a Região Metropolitana do Rio. Enquanto isso, milhares de topiqueiros que não conseguiram a autorização para trabalhar protestavam contra a decisão do chefe do Executivo estadual.
O Estado alega que o processo licitatório do transporte alternativo começou a ser feito há cerca 10 anos, nos 92 municípios do Rio de Janeiro. As primeiras vans legalizadas teriam começado a funcionar em setembro de 2007 nas regiões Serrana, Centro-Sul, Médio Paraíba, Norte e Noroeste Fluminense. Em junho deste ano, entraram em circulação os veículos da Costa Verde e da Baixada Litorânea.
Na Região Metropolitana (Guapimirim, Mesquita, Itaguaí, Nilópolis, Queimados, Belford Roxo, Duque de Caxias, Nova Iguaçu, Magé, Maricá, Rio Bonito, Itaboraí, São Gonçalo, Niterói e Rio de Janeiro), a licitação teve início em agosto de 2008 e 491 vagas, incluindo 50 linhas intermunicipais, foram oferecidas. As propostas de licitação foram recebidas em agosto do ano passado e teriam garantido 1.923 vagas de empregos no setor.
Discorda desse número, o Sindicato dos Trabalhadores em Transporte Alternativo do Estado (Sintral), que acusa o governador de ter acabado com milhares de empregos. O presidente do órgão, Sérgio Loureiro disse que atualmente existem cerca de 1.800 operadores de vans, mas apenas 440 continuaram trabalhando. Em entrevista ao jornal O Fluminense, Loureiro afirmou que cerca de 7 mil trabalhadores, diretos e indiretos (prestadores de serviço) foram prejudicados pela decisão.
Enquanto observamos o desenrolar dessa novela, continuamos sem entender a matemática que regula o preço das passagens municipais e intermunicipais, sobretudo aqui em Rio Bonito. Ninguém consegue entender porque a tarifa é mais barata de Tanguá para baixo. A sensação de que estamos sendo lesados fica mais nítida, quando estamos no Centro do Rio, e embarcamos num ônibus que faz as linhas de Bangu, Santa Cruz, Campo Grande etc. Do Centro do Rio até esses lugares, a distância é maior ou igual a extensão de Rio Bonito ao Centro do Rio. Mas em quanto a nossa tarifa gira em torno de R$ 10,00, eles pagam R$ cerca de R$ 3,00. Que matemática é essa?
Mas não é só isso! Por aqui também estamos acompanhando, a queda de braço da Prefeitura Municipal com os universitários. Enquanto os estudantes lutam por melhorias no transporte, que chegou circular com 150 pessoas em pé, a Prefeitura de forma oportunista decidiu fazer algumas mudanças, que embora sejam necessárias, poderiam ser implantadas em outra oportunidade. No município de Itaboraí também está acontecendo algo semelhante.
Narramos essas histórias para que possamos refletir sobre uma das fraturas expostas da sociedade brasileira: o “transporte público”. Não é difícil perceber que esses três acontecimentos (colapso no transporte alternativo, preço de passagens com critérios duvidosos e crise no transporte universitário) estão interligados por estarem inseridos em um setor da administração pública (transporte) que sempre esteve infestado de parasitas e aves de rapina.
Só para lembrar, nos Estados Unidos, o território é todo recortado por ferrovias. Mas no Brasil, um país que também tem dimensões continentais, as ferrovias e hidrovias não correspondem a metade da malha viária da nação. Além disso, o que existe está sucateado e gerenciado de forma relaxada para justificar a privatização. O mais interessante é que quando acontece essa privatização, vencem aquelas empresas que detém o monopólio do transporte em rodoviário. Ou seja, a concorrência não existe.
Depois dessas reflexões, concluímos com tristeza, que os detentores do poder no Brasil são parasitas que além de sorver o erário público, também sugam as aves de rapina, que, por sua vez, se alimentam da carne daqueles que verdadeiramente subsidiam o transporte público no país, o cidadão, que banca através do pagamento de impostos essa farra sem fim.
Talvez, o verdadeiro colapso não seja apenas do transporte, mas da forma que se faz política no Brasil, onde tudo é baseado no clientelismo e na filosofia do “farinha pouca meu pirão primeiro”. Para quem não acredita em crise no transporte ou na administração pública, não precisaríamos de transporte alternativo, de transporte universitário e de transporte de doentes, porque as tarifas teriam um valor acessível ao trabalhador, que pagariam as suas passagens sem precisar de favor.