
A culpa é sempre do outro!
Para o senso comum, a palavra “outro” é um termo simples e trivial. Contudo, o filósofo búlgaro Tzvetan Todorov argumenta que essa palavra pode carregar preconceitos e discriminação do falante que a esteja. Mas não se pode confundir “outro” com alteridade, termo que o dicionário Houaiss define como “natureza ou condição do que é outro, do que é distinto”. O dicionário também define a palavra, como “estado ou qualidade que se constitui através de relações de contraste, distinção e diferença”. Porém, alteridade, seria o reconhecimento, a compreensão, a admissão e o respeito ao “outro”, para que o convício social seja melhor. O pensamento de Todorov é baseado numa visão estruturalista de Saussure e Roland Barthes.
Apesar disso, o termo também pode ser empregado para fazer acepção de pessoas e, sobretudo, para que um culpado por alguma coisa se escuse das suas responsabilidades colocando a culpa no “outro”. O escritor mineiro Rubem Fonseca escreveu um texto com esse título: O outro. Ele narra a história de um executivo que acha estar sendo perseguido por um pedinte. Depois de dar a primeira esmola, o sujeito pede dinheiro todos os dias. As voltas com os seus afazeres e seus problemas de saúde, o executivo passa ter medo do homem, que tem uma aparência ameaçadora.
O executivo com medo do pedinte, um homem forte e ameaçador, atrai ele até a sua casa e com um tiro mata o sujeito. Quando o bandido está no chão, o executivo pela primeira vez olha para ele e descobre que o homem forte e ameaçador é um menino franzino, com o rosto cheio de espinhas. A palidez do morto é tanta, que o sangue que cobre a sua face não consegue esconder a sua fragilidade.
A teoria de Tzvetan Todorov, sobretudo a narrativa de Rubem Fonseca, demonstram como a forma que nós tratamos o “outro” pode acabar em tragédia, simplesmente porque esse “outro” não é enxergado e/ou respeitado. Aliás, tudo aquilo que é novo causa medo. Também podemos afirmar que a palavra estranho é tão mal compreendida e aplicada como o “outro”. Seria porque as mudanças não bem-vindas? Essa é uma particularidade de todo o ser humano.
A cidade de Rio Bonito atravessa uma crise sem precedentes, porque a ineficência do seu administrador é atribuída aos “outros”. Por exemplo, quando se queixa com o poder público que o futebol riobonitense está decadente, “a culpa é dos clubes”. Quando se queixa do esvaziamento do Carnaval, “a culpa é dos blocos e foliões”. Quando se fala dos problemas causados pela chuvas, “a culpa é dos desabrigados”. Se não tem ônibus para transportar os universitários, “a culpa é dos universitários”.
E não paramos por aí. Quando a obra prometida para a localidade do Cajueiro não aconteceu a culpa foi imputada a Câmara. Quando as novas funcionárias chamadas pelo concurso público – supostamente feito para ninguém passar – foram escaladas para limpar valões e fazer capinas, “a culpa também foi atribuida aos edis”. Aliás, também “é culpa da Câmara”, o fato de ainda termos um pinicão, na Praça Fonseca Portela poluindo o visual da cidade e atrapalhando os comerciantes da Rua João Carmo.
Quando as contas do prefeito foram rejeitadas, em 2007, a culpa foi creditada na conta do procurador – nesse caso esqueceram que existe um setor chamado Controladoria (esse setor controla o que?). Concluindo, quando não tem merenda nas escolas, “a culpa é da empresa que não entregou os alimentos”. Quando o pagamento do funcionalismo municipal é efetuado depois do quinto dia útil do mês, “a culpa é da crise econômica” e quando falta dinheiro, o que indica má administração dos recursos, “a culpa é da crise mundial”.
Por outro lado, quando se discute o crescimento do tráfico de drogas, “a culpa é da polícia” e nunca das famílias que acompanham o itinerário dos filhos. Quando se aborda os problemas de saúde pública, “a culpa é do governo” e não das pessoas que não cuidam da sua saúde de maneira preventiva. Quando o filho vai mal na escola, “a culpa é da professora”, mas poucos lembram de colocar o menino para fazer os exercícios de casa e diminuir o tempo gasto com TV e internet.