“Sinto vergonha de mim”

Frente aquelas imagens vergonhosas que nós assistimos no último dia 4 de dezembro, onde funcionários da Prefeitura Municipal de Rio Bonito aparecem pilhando um caminhão que tombou na RJ – 124 (Via Lagos) – pessoas que deveriam estar ali, para auxiliar na proteção do que foi saqueado, prestar socorro as prováveis vítimas do acidente e orientar os motoristas e curiosos que sempre aparecem nesses momentos – decidimos não nos calar.

Aliás, nos causou estranheza, a negativa do assessor da Secretaria “DE OBRAS”, Marcos Antonio Duarte, o nosso popular Marquinhos “DA OBRA”, que disse ao repórter Vinícius Assis, da InterTV, que não trabalhava referida Secretaria. Uma negação descabida, porque nos últimos anos, Marquinhos “DA OBRA” é sempre a primeira pessoa que encontramos quando chegamos à Secretaria de Obras!

O sentimento é de vergonha! Assim, decidimos nos socorrer ao grande Rui Barbosa, que há muitos anos, produziu um texto chamado “Sinto vergonha de mim”. Na verdade, versos que chicoteiam a nossa alma.

Sinto vergonha de mim…

por ter sido educador de parte desse povo,

por ter batalhado sempre pela justiça,

por compactuar com a honestidade,

por primar pela verdade

e por ver este povo já chamado varonil

enveredar pelo caminho da desonra.

Sinto vergonha de mim

por ter feito parte de uma era

que lutou pela democracia,

pela liberdade de ser

e ter que entregar aos meus filhos,

simples e abominavelmente,

a derrota das virtudes pelos vícios,

a ausência da sensatez

no julgamento da verdade,

a negligência com a família,

célula-mater da sociedade,

a demasiada preocupação

com o “eu” feliz a qualquer custo,

buscando a tal “felicidade”

em caminhos eivados de desrespeito

para com o seu próximo.

Tenho vergonha de mim

pela passividade em ouvir,

sem despejar meu verbo,

a tantas desculpas ditadas

pelo orgulho e vaidade,

a tanta falta de humildade

para reconhecer um erro cometido,

a tantos “floreios” para justificar

atos criminosos,

a tanta relutância

em esquecer a antiga posição

de sempre “contestar”,

voltar atrás e mudar o futuro.

Tenho vergonha de mim

pois faço parte de um povo que não reconheço,

enveredando por caminhos

que não quero percorrer…

Tenho vergonha da minha impotência,

da minha falta de garra,

das minhas desilusões

e do meu cansaço.

Não tenho para onde ir

pois amo este meu chão,

vibro ao ouvir meu Hino

e jamais usei a minha Bandeira

para enxugar o meu suor

ou enrolar meu corpo

na pecaminosa manifestação de nacionalidade.

Ao lado da vergonha de mim,

tenho tanta pena de ti,

povo brasileiro!

Junto dessas palavras, não poderíamos deixar de refletir sobre aquelas que, talvez, tenham sido escritas por Rui Barbosa, durante uma visão dos dias atuais:

“De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto”.