Lívia Louzada

No dia 18 (quarta-feira) de novembro muitas pessoas ficaram surpresas ao ver a moradora do bairro da Praça Cruzeiro, em Rio Bonito, Marri Natana Moraes Albino, dando seu depoimento no final da novela “Viver a Vida”, da Rede Globo (veja o vídeo aqui). A funcionária pública do município de Silva Jardim contou a história de superação do seu filho Davi, hoje com dois anos, e levou as lágrimas não só os parentes e amigos, mas também pessoas desconhecidas de outros países, que acabaram entrando em contato com ela. Marri falou à FOLHA DA TERRA sobre a história do seu filho, sobre a gravação do depoimento para a novela, e sua alegria de poder ver a recuperação do Davi.

A história que Marri Natana Moraes Albino, de 27 anos, contou na novela “Viver a Vida” começa com a descoberta da gravidez, pois além de não estar nos seus planos naquele momento, alguns médicos lhe garantiram que não poderia engravidar. A surpresa da gravidez veio junto a dores muito fortes e internações no Hospital de Clínicas de Niterói, pois Marri possuía um problema de saúde e a tentativa dos médicos era tentar manter o feto na barriga, pois seu organismo tentava expeli-lo.

Segundo ela, depois de muitos exames veio o veredicto: era preciso tirá-lo de sua barriga, mesmo com oito meses de gravidez, para tentar salvar a criança. “Daí por diante Davi ficou um mês em uma incubadora e foi internado mais cinco vezes, uma atrás da outra. E em uma dessas internações, foi feito um exame que diagnosticou a surdez no Davi”. De acordo com Marri, ele nasceu ouvinte, mas na segunda internação, por uso de um forte antibiótico, é que a surdez se alastrou. “Foi aí que comecei uma grande luta contra o desconhecido”, disse.

Depois de diagnosticado, e até hoje, o pequeno Davi faz tratamento com fonoaudióloga, fisioterapeuta e natação. Marri conta que o preconceito das pessoas com o Davi, foi muito grande, e uma fonoaudióloga de Rio Bonito “se recusou a atendê-lo no começo”. Ao procurar tratamento, a funcionária pública e seu marido, o técnico de enfermagem Charleston Albino Moraes, de 28 anos, descobriram que o Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo fazia um implante que permitia o desenvolvimento da audição. A partir daí, como já haviam tentado o tratamento com duas próteses normais, fizeram a inscrição no site do Hospital da USP, e depois de seis meses de avaliações com a equipe médica, Davi recebeu o implante coclear no dia 11 de fevereiro, data em que completou um ano e um mês de vida.

Viver a Vida

A idéia de dar o depoimento na novela surgiu quando Marri Natana recebeu um e-mail que dizia que quem quisesse contar sua história na novela “Viver a Vida”, poderia mandar um resumo através do site. Não acreditando que a história de seu filho fosse selecionada, ela mandou o resumo e algum tempo depois recebeu a ligação da produção da novela, dizendo que sua história havia sido selecionada. Segundo a funcionária pública, ela não acreditava no que estava acontecendo. “No princípio eu achei que fosse trote, mas quando entrei no Projac e vi tudo aquilo, as pessoas se emocionando na hora da minha gravação, eu senti um orgulho imenso de mim mesma enquanto mãe. Ver a história do meu filho sendo referência, e ele sendo exemplo de superação, foi muito bom. Senti que Deus era realmente o centro da minha vida e que eu não estaria ali sem ele”, afirmou.

Depois que seu depoimento foi ao ar, Marri recebeu muitos e-mail e mensagens de pessoas de vários Estados do Brasil e até de outros países do mundo, como Portugal, Angola e Estados Unidos. “As pessoas me deram palavras de apoio e encontraram esperança através do testemunho do Davi”, revelou.

 

Resultado

No dia 26 de abril de 2009, o implante foi ativado em Davi, e a partir dali ele começou a reagir aos sons que nunca havia ouvido. Marri disse que no momento que seu filho reagiu a um som pela primeira vez, ficou emocionada. “Senti que tinha valido a pena tantas lágrimas, tantas dores, tinha valido a pena arriscar, pois essa foi a minha maior superação enquanto mãe, e a de Davi de vencer tantos obstáculos. Meu filho é o maior exemplo que tenho de amor a vida, e de luta pra sobreviver”, disse.

De acordo com a mãe, hoje Davi se encontra respondendo bem aos estímulos, e a equipe médica do Hospital da USP o considera como excelente, pois tem tido percepções de barulhos muitos baixos.

“Embora a disciplina nos tratamentos seja indiscutível, pois ele faz fisioterapia, fonoaudiologia e natação duas vezes na semana, nunca pensei em desistir, porque sei que de mim, dos meus esforços, é que dependerá o futuro de sucesso para o meu filho. Tudo que mais almejo na minha vida é vê-lo adaptado às pessoas, ao mundo e principalmente adaptado a ele mesmo”, contou.

Hoje Marri diz que se pudesse pedir um presente de Natal, “pediria vida, saúde e paz pra minha família. Pediria também que o ano de 2010 fosse só de alegrias, sem internações, sem lágrimas de tristezas e sem dor. Pediria também que as pessoas fossem menos cruéis e egoístas”.

Hoje com dois anos completados recentemente, no dia 20 de dezembro, Marri lembra que Davi será sempre surdo, porém implantado. “Quando tiro a prótese dele pra dormir ou tomar banho, ele volta ao silêncio da surdez. A função do implante é trazer a ele, sons que o corpo dele não fornece. Ele é surdo e quero criá-lo ciente disso e sem vergonha ou preconceito consigo mesmo”, esclareceu.