Lívia Louzada

Com aproximadamente 80 anos de história, a Sapataria do Belino é conhecida por riobonitenses e até por pessoas de fora da cidade. Aberta inicialmente em Silva Jardim, na década de 40, por Belino Claudino Menezes, hoje a sapataria funciona na Av. Presidente Arthur Bernardes, nº 260, no Centro de Rio Bonito. Seguindo os ensinamentos de seu avô Belino, os irmãos Jorge Raimundo Rocha, de 51 anos e Gustavo Adolfo Rocha de 46, mantém o trabalho artesanal, a qualidade do serviço e a amizade com a clientela. Apesar das dificuldades para continuar o trabalho, Jorge não pensa em trocar de ramo, pois diz gostar do que faz. Com tantos anos de existência, a sapataria coleciona não só amigos e clientes, mas também muitas histórias divertidas.

Quando Belino Claudino Menezes aprendeu o ofício de sapateiro e abriu seu estabelecimento em Silva Jardim, não poderia imaginar que depois de tantos anos, a sapataria continuaria de pé, e conquistando novos clientes. Além do ofício de sapateiro, Belino dividia sua vida entre o amor pelo futebol e pelo carnaval. Por isso, ao receber uma proposta para jogar em um time da região, e se mudar para Rio Bonito, ele não pensou duas vezes. Por volta de 1945, Belino veio para a cidade e abriu sua sapataria em uma sala na frente do prédio da Delegacia, na Rua XV de Novembro, no Centro.

Nos anos seguintes, a sapataria mudaria de local três vezes. Ela já funcionou em frente a antiga Estação Ferroviária, na hoje Praça Astério Alves de Mendonça; em frente ao Edifício José Maria Kleinsorgen, na Rua Getúlio Vargas, e depois na subida do Hospital Regional Darcy Vargas (Rua João Carmo). Só em 1965 a sapataria começou a funcionar no local em que se encontra até hoje, na Av. presidente Arthur Bernardes, nº 260.

Em 1976, quando Belino veio a falecer, quem assumiu a direção do lugar, foi a única filha mulher que trabalhava com ele, Elazir Menezes Rocha. Só em 1982, ela passou para seus dois filhos, Jorge Raimundo Rocha e Gustavo Adolfo Rocha, o comando do estabelecimento. Como os dois já conheciam o ramo, pois trabalhavam com o avô desde criança, não foi muito difícil continuar o trabalho.

Mas nem tudo foi um mar de rosas. As dificuldades financeiras quase abalaram a dupla em 1986. Mas como saída do problema, os irmãos resolveram inovar, começando a consertar selas e arreios para cavalos. A idéia deu tão certo, que tirou a sapataria do sufoco e mostrou uma nova vertente de serviço para os dois. Apesar disso, Jorge conta que não pensou em desistir. “Já tivemos momentos em que pagamos para trabalhar, mas mesmo assim, nunca pensei em fechar a sapataria. Além de ter um compromisso, porque a sapataria foi do meu avô, gosto do que faço e não sei fazer outra coisa”, lembra.

Novo rumo

Jorge Raimundo lembra que em 2003 a sapataria que até então se chamava Sapataria do Belinho, apelido de Belino, passou a se chamar, Sapataria do Belino. A troca aconteceu porque o funcionário Sérgio Antônio da Costa, de 46 anos, que trabalha na sapataria desde criança, começou a ser chamado de Belinho, porque trabalhava com ele. O problema é que depois de um tempo, as pessoas começaram achar que a sapataria era de Sérgio. E para não haver mais confusões, apesar da amizade com Sérgio, os irmão decidiram trocar o nome do estabelecimento para o que é até hoje.

Mas apesar da confusão Sérgio, Jorge e Gustavo, não tem uma relação de patrões e empregado, e sim de irmãos. Hoje os três trabalham na sapataria, mas recebem ajuda de familiares, como a mulher e os dois filhos de Jorge, Dionice Rodrigues Rocha, Guilherme Adolfo Rocha, de 18 anos e Rafael Rodrigues Rocha, de 14, respectivamente; e o filho de Sérgio, Thiago Antônio de Oliveira Costa, de 18 anos.

Depois de tantos anos trabalhando juntos, o que não falta são histórias para contar. Segundo Jorge, há alguns anos atrás, quando sua mãe ainda estava à frente do local, apareceu um homem que lhes pediu que fizesse um sapato para ele, pois calçava 54 e não encontrava pronto para comprar. Jorge disse que apesar de não fabricarem calçados, apenas fazerem consertos, sua mãe e Sérgio aceitaram o desafio, e produziram o par.

“O homem precisava de um sapato tipo vulcabrás, para o emprego que tinha arrumado. O problema é que o pé dele era grande e largo, e por isso tiveram que pegar dois pares, tamanho 44, e emendar a frente de um, com o resto do outro”, conta.

Jorge diz que se sente feliz com o que faz, e que gostaria que seus filhos seguissem seus passos, mas sabe que hoje em dia, a profissão de sapateiro, não é muito popular. Ele fala da felicidade em ver as pessoas satisfeitas com o serviço pronto.

“O bom do que eu faço, é que lido mais com amigos do que com clientes, e é muito bom ver a alegria da pessoa, quando mostro o conserto pronto”, diz.

E Apesar de já ter recebido propostas para ser sapateiro em outras cidades e até nos Estados Unidos, Jorge conta que gosta mesmo é daqui, e das pessoas que lida. De acordo com ele, é muito difícil encontrar pessoas que ainda façam esse tipo de serviço artesanal. “E esse é o nosso diferencial”, diz.

E para driblar a queda de movimento nos meses de calor, a sapataria aposta em consertos de botas de cross e malas de viagem. Segundo o sapateiro, “91% da clientela são de mulheres, e neste período, elas usam mais sandálias, (calçados menos comuns de serem consertados) ao contrário do inverno, período em que o movimento aumenta bastante”.