Lívia Louzada
O grande número de pessoas que lotam a Avenida Manuel Duarte, no trecho que corta o bairro Bela Vista, em Rio Bonito, nos finais de semana – principalmente aos domingos – para empinar pipa, se tornou um perigo para pessoas que passam pelo local, principalmente ciclistas e motociclistas. A brincadeira está atraindo moradores de vários bairros e até de cidades vizinhas, que usam o cerol para ‘cortar’ os adversários. Mas o que era para ser uma simples brincadeira já virou até caso de polícia. É que no dia 1º deste mês, o menor G.P.V.C., de 14 anos levou um corte no rosto provocado por uma linha de pipa com cerol. O acidente aconteceu por volta das 17h, na Avenida Manuel Duarte.
Segundo testemunhas que não quiseram se identificar, o menor estaria passando pelo trecho, na garupa de uma moto, pilotada por um amigo, também menor de idade, quando a linha da pipa atingiu o seu rosto. Pessoas que presenciaram a cena, levaram o menor para o Hospital Regional Darcy Vargas, onde ele foi atendido e depois liberado. De acordo com o depoimento da mãe de G, Rosana Peres Veiga Costa, na 119ª DP, onde o caso foi registrado, testemunhas teriam comentado que o autor do acidente seria conhecido como Erasmo, morador da localidade de Bosque Clube.
De acordo com o delegado da 119ª Delegacia de Polícia de Rio Bonito, Alberto Thomaz da Silva, tanto a fabricação, quanto o uso do cerol, são crimes. Para tentar evitar acidentes fatais, ele pede para que os riobonitenses empinem pipas em locais de pouca circulação de pessoas.
“Essa é uma brincadeira altamente perniciosa, pois pode causar a morte de motociclistas, ciclistas e até pessoas que estão fazendo exercícios, como a corrida, na rua. Se for presa, a pessoa pode ser condenada por lesão corporal culposa, ou por homicídio culposo, se a vítima morrer por causa do ferimento provocado pela linha de pipa”, alerta.
Motociclistas usam antenas para se proteger
Os motociclistas, que são os mais atingidos pelas linhas com cerol, fazem o que podem para se protegerem. Um exemplo é a funcionária pública, Alessandra Miranda Soares, de 29 anos, que pretende instalar uma antena de proteção em sua moto, uma medida já usada por muitos deles. Moradora da Praça Cruzeiro, ela conta que o Morro da Alegria, a Rua Júlio Salusse, e próximo a Paróquia São João Batista, são pontos constantes de grupos de pessoas que empinam pipas.
“Quero instalar a antena na minha moto porque tenho medo de perder a vida por causa de uma linha com cerol. Apesar de saber que não é o suficiente para me proteger, em época de frio, procuro andar sempre de blusa de manga comprida, com gola alta. Mas o que mais me apavora, são alguns pais, que além de não tomarem atitude alguma, incentivam os filhos a soltarem pipa com cerol”, critica.
Alessandra completa dizendo que acompanhou de perto um acidente que aconteceu com seu primo, Rodrigo Azevedo Lima. De acordo com ela, há alguns meses, ele estaria andando de moto pela Praça Cruzeiro, quando levou um corte no braço, de uma linha de pipa, com cerol.
Cerol chileno
Segundo um praticante da brincadeira, que não quis se identificar, quase todos os que soltam pipa no bairro Bela Vista, usam o cerol, mas há pessoas que utilizam um tipo diferente, conhecido popularmente como cerol chileno. Ele conta que com o intuito de tornar a brincadeira mais competitiva, usam o cerol, para cortar pipas de adversários, no ar.
Composto por quartzo moído e óxido de alumínio, o cerol chileno é bastante cobiçado, já que corta quatro vezes mais do que o cerol tradicional. Mas a prática não é barata, quem investe no produto, tem que desembolsar mais que o dobro do valor de um carretel (com cerol) normal. Conhecido pelos amantes da brincadeira como “deizão”, o carretel com 450m de linha corrente cem cerol, custa em média, R$ 5,50, já com o cerol chileno, a linha pode custar cerca de R$ 12,00.
Uma das características da nova substância, acaba despistando a ação de autoridades, já que a linha com o cerol chileno é lisa, como uma linha sem cerol, diferente da linha com cerol tradicional, que fica ondulada. O cerol comum é feito com uma mistura de cola de madeira e vidro triturado.
Brincadeira que atrai pessoas de todas as idades
Uma moradora da Avenida Manuel Duarte, na Bela Vista, que não quis se identificar, disse que a brincadeira acontece todos os domingos, com pessoas de todos os lugares. “Tem gente de todas as idades e de outras cidades, como Tanguá, por exemplo. Já vi crianças de seis anos, e até homens de 60. Eles se espalham da Padaria Mister Pão, até a entrada de uma rua vigiada, que fica depois do Desembargador (Colégio Estadual Desembargador Jose Augusto Coelho), mas alguns vem antes para esticar a linha e aplicar o cerol”, conta.
Apesar de não utilizar cerol quando empina pipa, o estudante Francisco Neto, de 15 anos e morador da Praça Cruzeiro, conta que conhece pessoas que usam a substância. Segundo ele, o cerol tradicional, que é feito com cola e vidro moído, pode ser comprado facilmente em Rio Bonito. O produto é vendido em alguns comércios da cidade em pequenas garrafas de cerca de 10 cm, por apenas R$ 1,00.