Flávio Azevedo

“Evite o primeiro gole!” e “Se o seu problema é beber, o problema é seu... Se o seu problema é parar de beber, o problema é nosso!”, são frases de incentivo ao abandono do alcoolismo, apontado como um dos principais responsáveis por vários problemas sociais do planeta. Com o objetivo de recuperar pessoas que, muitas vezes, perderam quase tudo, por causa do alcoolismo, o Alcoólicos Anônimos, em Rio Bonito desenvolve, há 39 anos, um trabalho que se estendeu para Tanguá, Itaboraí, Casimiro de Abreu e Silva Jardim.

O Grupo Alcoólicos Anônimos de Rio Bonito, popularmente chamado de AA, conta com cerca de 600 integrantes e foi fundado em 19 de agosto de 1971. As primeiras reuniões foram realizadas no salão paroquial, onde o grupo ficou até 1982. A partir desta data, a entidade passou a funcionar num prédio alugado, na Avenida Manuel Duarte, nº 81, no Centro. No dia 1º de maio de 1987, o AA se mudou para o atual endereço, Av. Santos Dumont, nº 118, no Centro, num prédio concedido pela Prefeitura de Rio Bonito

O Grupo

Uma das maneiras de ganhar forças contra o alcoolismo são as reuniões diárias na sede do AA. Os ex-alcoólatras, agora, alcoólicos – termo utilizado pelos próprios integrantes da irmandade – trocam experiências relembrando fatos que deveriam esquecer. As lembranças, porém, fortalecem o grupo e ajuda o participante a se manter longe das bebidas alcoólicas. Durante a reunião, o clima é de cumplicidade a cada história narrada é um incentivo a se manter sóbrio por outras 24h.

O coordenador da reunião, depois de cada testemunho, a todo o momento destaca o objetivo de ficar mais 24h longe do álcool; frisa que independentemente da posição social de cada um, naquele local, todos são iguais; e lembra que naquele ambiente, não se discute política, futebol e religião, reiterando que o AA aceita pessoas de todo credo religioso e todas as classes sociais.

Experiências do AA

Uma das diretrizes que devem ser respeitadas pelos integrantes do AA é, como o próprio nome da irmandade diz, o anonimato. As instalações e o interior da sala de reuniões não podem ser fotografados, assim como a identidade das pessoas deve ser preservada. Alguns integrantes, porém, voluntariamente fazem questão de contar as suas histórias com o objetivo de contagiar outras pessoas que também estejam com a doença do álcool, e em busca de tratamento.

Um caso emblemático da atuação do AA em Rio Bonito e da recuperação de uma pessoa, entre muitas outras, é a história do aposentado Antonio Gonçalves, alcoólatra durante 25 anos. Aos 75 anos, ele conta que por conta dos efeitos da bebida alcoólica ele chegou a ser, por 11 vezes, internado no Hospital Colônia Rio Bonito (HCRB). “Isso sem falar nas internações em outras instituições de São Gonçalo e Niterói”, relata.

– Eu perdi a minha família, perdi a memória e tinha uma tremedeira terrível! Quando parei de beber, lá se vão 33 anos, a minha esposa, que era muito maltratada por mim, não acreditou na minha recuperação, e infelizmente, eu não consegui recuperar a minha família. Mas aqui no AA eu encontrei a família que eu precisava para tratar essa doença terrível e começar vida nova – conta seu Antônio.

Desde que entrou no AA, Antonio Gonçalves coordena o Grupo de AA que funciona no HCRB. “Eu vivi ali dentro, e sei que, assim como aconteceu comigo, muitos daqueles internos estão lá por causa do álcool. A única coisa que eu poderia fazer era levar para eles, a força que eu conheci aqui na irmandade”, conclui.

Especialistas afirmam que a família, inclusive, acompanhando a pessoa em recuperação, às reuniões do AA, é uma das ferramentas mais importantes para que a decisão de deixar o álcool seja mantida. Um dos alcoólicos, durante o seu testemunho, ressaltou que “perceber que precisamos parar de beber, reconhecer que o alcoolismo é uma doença e que precisamos de tratamento são passos importantes para a recuperação do alcoólatra. Temos que admitir que somos impotentes perante o álcool”.

Fundação

O AA é uma irmandade de homens e mulheres que compartilham suas experiências, a fim de resolver seu problema comum: o alcoolismo. O grupo surgiu nos Estados Unidos em 1935, através do corretor da bolsa de New York, Bill Wilson, e do cirurgião, Robert Smith, que enfrentavam as conseqüências do alcoolismo. Eles construíram a comunidade, que, hoje, em todo mundo tem contribuído para recuperar a dignidade de inúmeras pessoas.

O alcoolismo passou a ser tratado como doença em 1960. Analisando pesquisas científicas, a Organização Mundial de Saúde (OMS) reconheceu o caráter de doença no beber compulsivo do alcoólatra. O reconhecimento tem contribuído para combater preconceitos e, sobretudo, para aliviar o sofrimento moral da pessoa em recuperação.