O homem cordial

A nação acompanha estarrecida a violência que tem assolado as grandes capitais brasileiras. A maior metrópole da América Latina, São Paulo, tenta conviver há cerca de três meses com ‘ataques terroristas’ que há pouco tempo só conhecíamos pela televisão como marca de outros continentes. No Rio de Janeiro, depois de uma onda de assaltos a turistas – como o jovem português morto no último dia 14 – essa semana o noticiário nos chocou com a cena de uma mãe acariciando o filho assassinado na noite da última segunda-feira (28).

Nas pequenas cidades do interior, antigamente procuradas pela pródiga tranqüilidade (causa da procura de turistas nos finais de semana), existe hoje a apreensão, e o medo da violência. Como exemplo, citamos Rio Bonito, onde acompanhamos o covarde atentado ao Prefeito José Luiz, no dia primeiro de agosto. Dez dias depois, algumas famílias das localidades de Rio Seco, Mata e Tomascar, foram massacradas por bandidos em um final de semana (10/8), que não merece ser lembrado.

Analisando o viés social desses acontecimentos, me recordo de um texto do historiador Sérgio Buarque de Holanda escrito em 1936. No quinto capitulo do livro, Raízes do Brasil, ele teoriza sobre o Homem Cordial. Segundo o historiador, esse modelo de comportamento está presente apenas nos filhos de nossa terra. “A lhaneza no trato, a hospitalidade, a generosidade, virtudes tão gabadas por estrangeiros que nos visitam, representam, com efeito, um traço definitivo do caráter brasileiro...”.

Além da definição sociológica de Sérgio Buarque, nossos dicionários definem a cordialidade da seguinte forma: relativo ao coração. Afetuoso, franco, sincero. Essas definições e os fatos narrados anteriormente nos sugerem uma reflexão: “onde está o homem cordial”? Alguns deles estão amedrontados, escondidos e protegidos por grades pontiagudas, por muros gigantescos, pelos alarmes, por seguranças particulares, no semblante fechado que não permite um sorriso seguido de um cordial “bom-dia”. E outros, na tentativa de sobreviver a triste situação social em que são obrigados a nascer, crescer, viver e morrer, são levados a cometerem atrocidades no estilo Zé Pequeno da cidade de Deus.

Enquanto as pessoas estão de mãos atadas por um estado que nem de longe é ‘direito’ com os seus contribuintes, na última terça-feira (15) começou o ‘horário cara-de-pau obrigatório’, que duas vezes no dia invade os nossos lares. Sejamos cordiais com eles! Façamos justiça com as próprias mãos (o dedo, pra ser mais preciso), eliminando com o nosso voto os maus intencionados. Dessa maneira, demonstraremos lhaneza, afeto, franqueza, sinceridade e o principal: inteligência.