Lívia Louzada
Sempre no volante e alerta para o sinal de mais um passageiro. Esse é o dia-a-dia de todo taxista, e em Rio Bonito, não poderia ser diferente. Os quase 30 profissionais que trabalham na cidade se revezam para estacionarem seus carros nas sete vagas existentes no único ponto de táxi, ao lado da Rodoviária Municipal Alcebíades Moraes Filho, no Centro. Mas nem por isso perdem o bom humor, e se divertem a cada vez que lembram de momentos vividos ao longo da carreira. Para saber um pouco mais da realidade dos profissionais do volante, a reportagem da FOLHA ouviu as histórias de dois taxistas, Josué Ferreira, o Lelé, de 56 anos, e 35 de profissão, e Sérgio Coutinho, o Limão, que tem 48 anos e há apenas dois meses trabalha como taxista.
Um dos mais antigos taxistas de Rio Bonito, Lelé, conta que já passou por diversas situações engraçadas e até constrangedoras, nesses 35 anos de trabalho. Ele diz que por diversas vezes já foi chamado para levar grávidas, prestes a dar a luz, para o Hospital Regional Darcy Vargas. “Já teve caso em que tive que sair correndo, e achei que teria que fazer o parto, mas graças a Deus, deu tempo de chegar ao Hospital”.
Outra lembrança que o taxista se diverte quando conta, foram as vezes em que foi chamado, tanto por homens quanto por mulheres, que achavam que estavam sendo traídos. Segundo ele, os maridos ou esposas pedem para seguir os companheiros, na tentativa de pegá-los em flagrante, mas esse não é o tipo de corrida que Lelé gosta de fazer.
“Já houve vezes que eu até desisti da corrida, e voltei. Pedi desculpas, e disse que esse tipo de serviço eu não faço, pois posso até ter problemas depois”.
Mas nem sempre o dia-a-dia dos taxistas é fácil. Segundo o experiente profissional, há sempre cuidados que podem ser tomados, para evitar problemas, como no caso de ser contratado por uma pessoa desconhecida que pede para ser levada para um lugar distante. Segundo ele, uma dica é conversar com a pessoa antes.
“Gosto de conversar até para saber mais sobre a pessoa, inclusive quando você não conhece. Antes de embarcar, se deve conversar para saber mais ou menos como a pessoa é, pois as vezes dá para ter uma ideia”, revela.
Lelé conta que por causa de alguns hábitos como esse, e também “por livramento de Deus”, já conseguiu escapar de assaltos e até de ser morto. “Graças a Deus nunca fui assaltado, mas houve vezes em que era o primeiro da fila, mas a pessoa preferiu pegar o segundo táxi, e o taxista acabou sendo assaltado. Além disso, já houve até morte por aqui. Há uns trinta anos atrás, eu me lembro muito bem, quando um homem pegou o terceiro táxi aqui do ponto, e eu era o primeiro. Era um cara estranho, que pegou um motorista chamado Ademário, e pediu uma corrida para Nova Cidade. Poucas horas depois, soubemos que Ademário estava morto. O cara assaltou e matou a facadas o taxista. Esse foi um livramento de Deus”.
Outro caso contado por Josué, aconteceu há menos de seis meses, em Tanguá. De acordo com ele, estavam todos os táxis no ponto, e ele era o primeiro, até que dois homens chegaram e escolheram o segundo carro da fila, e pediram uma corrida para a localidade da Posse. No destino, o taxista foi assaltado e teve seu carro roubado, mas conseguiu reaver o veículo, após os bandidos roubarem outro automóvel.
Dificuldades
O experiente taxista conta que a classe enfrenta outro problema no dia-a-dia, a superlotação do ponto. De acordo com ele, são apenas sete vagas, para quase 30 carros, o que acaba gerando, muitas vezes, fila dupla no ponto. “Nosso ponto está pequeno. Temos muitos carros para poucas vagas. Nossa prioridade no momento, seria a abertura de mais um ou dois pontos para espalhar os carros. A cidade está crescendo, então poderiam criar outros pontos em outras ruas”, diz Lelé, com toda a sua experiência.
Começando
Mas não são apenas de antigos taxistas, que a frota riobonitense é formada. Ao contrário de Lelé, Sérgio Coutinho, o Limão, como o é mais conhecido, trabalha só há dois meses como taxista em Rio Bonito. Morador da cidade, ele afirma que decidiu trabalhar em Rio Bonito para ficar mais perto da família, já que trabalhava com frete em Macaé e ficava pouco tempo em casa. Com a experiência de quem já exerceu a profissão, no Rio de Janeiro, por dois anos, ele faz uma comparação.
“Aqui é muito diferente. A maior diferença é o próprio passageiro. Aqui o pessoal é mais passivo e educado. Outra diferença é a quantidade de passageiros daqui, que é bem menor, mas em compensação, lá tem muita concorrência. Apesar de Rio Bonito ser pequeno, aqui um taxista se comunica com o outro, quando um cliente está querendo uma corrida, e ele está ocupado, já no Rio, isso nunca acontece. Essa é a vantagem de trabalhar no interior”.
Segundo Limão, a maior parte dos clientes que pega, são pessoas que têm alguma deficiência, e que não podem pegar um transporte coletivo para ir ao aeroporto no Rio, por exemplo, ou a uma consulta médica em Niterói. Mas apesar da simpatia e da vontade de trabalhar, nem ele esperava que, como taxista, iria ter que fazer o papel de psicólogo.
“Já aconteceu de tudo. Às vezes a gente tem até que dar uma de psicólogo. Esses dias peguei uma passageira que queria ir para Tanguá. Quando saí de Rio Bonito, a pessoa começou a chorar compulsivamente, então perguntei o que era, e ela começou a se abrir, por isso tive que parar o carro, e aconselhá-la”, disse, sem entrar em detalhes.