Lívia Louzada

A notícia da morte do escritor Marco Antônio Vaz Calil, de 56 anos, chocou parentes e amigos no último dia 04/02 (sábado . Segundo amigos que não quiseram se identificar, Marquinho Calil, foi encontrado morto, dentro do próprio carro, no bairro de Icaraí, em Niterói, por volta das 18h de sexta-feira (03). O escritor foi velado na capela do Cemitério Jardim das Acácias, no distrito de Basílio, e sepultado no mesmo cemitério, por volta das 13h.

Centenas de parentes e amigos acompanharam, emocionados, o velório de Marquinho, onde foram feitas algumas homenagens. A comadre do escritor, Marlene Prevot, cantou a música “Sei lá Mangueira”, de Paulinho da Viola, uma das prediletas dele, por ser mangueirense de coração. A bandeira da escola de samba também foi colocada em cima do seu caixão.

A reportagem da FOLHA conversou com Marlene, que através de e-mail, descreveu um pouco do que sentiu no momento do velório.

“Por conhecer sua alma sambista não me contive em seu velório e o homenageei com o samba que ele muitas vezes me pediu para cantar. Ele queria sempre ver a portelense homenagear a verde e rosa, eu sei. Então, para fazê-lo feliz neste último encontro cantei: “(... em Mangueira poesia, um sobe e desce constante, anda descalço ensinando, um modo novo da gente viver. De cantar, de sonhar, de sofrer. Sei lá não sei! Sei lá não sei não... Calil (em lugar da Mangueira) é tão grande, que nem cabe explicação.” (Sei lá Mangueira – Paulinho da Viola). É assim que hoje, na minha saudade o consigo descrever”, disse Marlene.

Além de Marlene, Ana Noêmia, irmã de Marquinho, também prestou sua homenagem, lendo um texto, escrito por ele no Natal, que falava sobre eternidade: “Meus amigos, um dia seguirei por pequenas estradas bucólicas esperando encontrá-los após a próxima curva e vocês virão atrás de mim ansiosos pelo riso que não lhes dei e assim viveremos pela eternidade, a sombra atrás da imagem, a caminhar sem pressa, na certeza do encontro”.

A morte
Segundo informações, na noite de quinta-feira (02), Marquinho teria ido a um bar em Icaraí. A suspeita é de que ele já estaria passando mal (o escritor sofria de diabetes), e por isso teria pedido uma Coca-Cola para beber. Mas como o refrigerante não teria surtido efeito de melhora, ele foi até seu carro, que estava estacionado ao lado do bar, onde sempre carregava algumas doses de insulina.

No dia seguinte, o dono do bar teria estranhado a presença do mesmo carro, próximo ao seu estabelecimento, e ainda com o ar-condicionado ligado. Por volta das 18h, o proprietário chamou a Polícia, e quando o carro foi aberto, o escritor foi encontrado morto, e ao seu lado, uma seringa de insulina.

Amante do carnaval

e da cultura
Nascido no dia 9 de Abril de 1955, Marquinho era amante do Carnaval, principalmente da Estação Primeira de Mangueira. Muito criativo, ele ajudou o amigo André Goettert a decorar o Centro Cultural da Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL) de Rio Bonito.

“Como ele tinha muito bom gosto e era meu amigo pessoal, me ajudou a decorar o salão, colocou as fotos antigas da cidade e ainda teve a ideia da decoração de um painel que temos na entrada da sede. Ultimamente, ele estava me ajudando no projeto para o teatro e o cinema que queremos construir. É uma pena ele ter ido, vai fazer muita falta”, lamenta o presidente do CDL.

Cirurgião dentista de formação e escritor de talento, Marquinho lançou em 2006 o livro “O Mistério da Serra do Sambê”, lugar que adorava estar, e onde morou por vários anos. Em 2009, o lançamento foi o livro “Saudades do Monte Líbano”, no qual narra a chegada dos seus avós ao Brasil. Mas o que poucos sabem é que o escritor ainda tinha não só uma, mas duas ‘cartas na manga’.

Sua irmã, Ana Noêmia, revelou à reportagem da FOLHA, que ele estava escrevendo dois livros, ainda de títulos desconhecidos. Segundo ela, um livro falava sobre a poesia nas músicas, e outro era um romance que se passava na época da guerra, em Rio Bonito. Neste último, Marquinho narra a visão que uma menina tinha sobre a guerra.

Como o escritor gostava muito de preservar a memória da cidade e de sua família, no fim de 2011, ele abriu o Bazar de Antiguidades, na Travessa José Abdalla Helayel, no Centro da cidade, onde vendia peças únicas e históricas.

Homenagem
À pedido da reportagem da FOLHA, sua afilhada Bethânia Prevot, escreveu o que o padrinho representava para ela.

“Certamente ainda não conseguimos avaliar o vazio que tua ausência deixará em cada um de nós. Teu silêncio será sempre, doloroso e ensurdecedor. Em nossos encontros, eras sempre o esperado, tua conversa inteligente, espontânea, polêmica, plena de informações e conhecimentos, nos encantava, divertia, esclarecia. Nos bons momentos, sempre que possível, fazias parte. Apoiando, incentivando. Nos difíceis, eras imprescindível, e te fazias presente de qualquer maneira: sensato, sensível, firme, verdadeiro e determinado. Às vezes até o silêncio bastava, pois estavas ali. Com teus grandes laços de amizades, ensinastes como é bom valorizar e cuidar dos amigos, pois eles podem ser outra verdadeira família. Sempre aproveitou intensamente a vida social, mas em momentos pessoais, desejava não ser interrompido e assim viveu seus dias sempre criando... Por isso, fica em nós a certeza do artista que guardou dentro de si, até ao último momento, muitos sonhos”.