Fabiano Martinez

O ano era 1939, o experiente comandante Severiano Lins pilotava seu hidroavião, modelo Junker Ju-52, de fabricação alemã, que vinha de Belém do Pará com destino ao Rio de janeiro. A aeronave batizada de “Marimbá” tinha feito sua última escala em Vitória, no Espírito Santo, e voava a dois mil metros de altitude, sobre a Serra do Sambê, em Rio Bonito, quando um erro inesperado fez com que o piloto mergulhasse para a morte, a apenas 50 km do destino final.

Severiano Lins era de longe o piloto mais experiente e capacitado para comandar a aeronave da empresa Condor, recém-construída e uma das mais seguras da época. Foi o primeiro piloto brasileiro a receber o título de comandante de uma aeronave civil e a viajar para a Alemanha onde recebeu treinamento para comandar um avião durante um vôo noturno, conhecido como vôo cego.  Lins teve tanto sucesso no período de estágio na Alemanha, que foi o primeiro brasileiro a comandar uma aeronave comercial na Europa. Ele recebeu da fábrica Junker a condecoração de piloto brasileiro com maior experiência de seus modelos.

No dia 13 de janeiro, ele voava sobre a cidade de Rio Bonito, se desviando da rota original que era feita pelo litoral por causa do mau tempo. Abaixo dele estava a Serra do Sambê, totalmente encoberta por nuvens. Com a proximidade do Rio de Janeiro, o piloto iniciou o procedimento de descida, que antecede o pouso. Depois de consultar o mapa, mergulhou cortando o espesso tapete branco formado pelas nuvens, totalmente sem visão. Apesar de não enxergar o que tinha logo abaixo, Lins não via problema na manobra, pois segundo o mapa o único obstáculo era a Serra do Sambê, que constava com apenas 200 metros de altura, dando ao piloto a certeza de que quando atravessasse as nuvens estaria em altitude segura. Como vários mapas da época, aquele tinha erros graves, os picos mais altos da serra chegavam a mais de 900 metros. Sem desconfiar, o comandante conduziu seu avião para a destruição. O Marimbá se chocou com a serra e explodiu matando todos a bordo, cinco tripulantes e cinco passageiros. Entre eles uma criança. Uma triste coincidência para os supersticiosos: a tragédia aconteceu numa chuvosa tarde de sexta-feira 13.

O hidroavião, modelo Junker Ju-52, de fabricação alemã,  vinha de Belém do Pará com destino ao Rio de janeiro. A aeronave batizada de “Marimbá” tinha feito sua última escala em Vitória, no Espírito Santo, e voava a dois mil metros de altitude, sobre a Serra do Sambê, em Rio Bonito, quando um erro no mapa fez com que o piloto mergulhasse para a morte, a apenas 50 km do destino final, o Rio de Janeiro

Histórias que viraram folclore na cidade

Entre as curiosidades que envolvem o desastre aéreo estão as histórias contadas ao longo do tempo por moradores de Rio Bonito, que fazem parte do folclore da cidade. Há quem diga que o avião estava carregado de pedras preciosas encontradas por pessoas que lotaram o lugar durante o fim de semana. Até hoje não se tem prova da existência do tão comentado tesouro. Outra é sobre as peças do “Marimbá”, que teriam sido trazidas para a cidade e utilizadas em diversas finalidades, em residências e lojas. Tem ainda as famosas mangas que podem ser encontradas no quintal de dona Dalva Figueiredo, no centro da cidade. Segundo relatos, o avião estava carregado de mangas vindas do Nordeste que foram recolhidas e plantadas por aqui.

Outro fato pitoresco envolve o resgate dos corpos. O primeiro a subir a serra, depois de avisado do acidente, foi o delegado Antônio Farias (o capitão Farias), acompanhado do médico Octávio Soares e alguns soldados. O capitão era conhecido pelos métodos rígidos com que tratava os presos e costumava impor trabalhos forçados em fazendas e estradas. Naquele dia ele não teve dúvidas e obrigou que ajudassem na retirada dos mortos. Nem os curiosos escaparam do da autoridade do delegado e tiveram que ajudar no difícil trabalho.

Uma dessas pessoas foi José  Cardoso, fundador da empresa Incomatol, avô do músico e pesquisador cultural, Marcelo Oliveira Cardoso. O músico, que é mais conhecido como Kaus, é um verdadeiro apaixonado pela história do “Marimbá” e tem um acervo muito grande com documentos, fotos e jornais antigos sobre o fato. Ele ouviu várias vezes o avô contar como tinha sido obrigado a trazer as vítimas do acidente para a cidade. Durante a pesquisa que levou anos, Kaus fez contato com o filho do Comandante Lins, que hoje mora no Recife. Na primeira correspondência uma revelação comovente. O Também piloto de avião, Fernando Chaves Lins, hoje com 79 anos, guarda pelo local onde seu pai morreu um carinho surpreendente.

“Na infância sempre imaginávamos que ele ainda vivia e se encontrava perdido nas matas de Rio Bonito”, escreve o piloto no primeiro contato por e-mail com Kaus.

Mais tarde, Kaus viajou para o Recife e conheceu, pessoalmente, Fernando Lins, que publicou um livro sobre seu pai, o Comandante Lins, onde tem destaque o episódio do acidente.

Marcelo Kaus guarda verdadeiras relíquias da memória da cidade. Entre elas a escritura da fazenda que mais tarde ganhou o nome de Marimbá. O local era uma antiga colônia de italianos formada pelas famílias Ceccarelli, Angeli e Bertonis, até hoje, popularmente chamada de “os italianos”.

Figura conhecida em Rio Bonito e neto de Pietro Ceccarelli, Silvio Ceccarrelli ainda lembra da fazenda do avô, onde viveu boa parte da infância. Apesar de não voltar à propriedade desde a década de 50, ele diz que partes da aeronave ficaram no meio da mata.  Algumas delas, segundo caçadores e trilheiros, estão lá até hoje. Como se ainda quisessem lembrar os últimos momentos do “Marimbá”, que encontrou a destruição entre as árvores. Do corajoso comandante Lins e de todos que perderam suas vidas na grande serra.  Uma história para ser contada para sempre.

Comerciante presenciou o acidente com o Marimbá

Com 88 anos, seu Álvaro dos Santos, conhecido comerciante da cidade, hoje morador do Boqueirão, parece voltar no tempo e aponta para a imensidão verde tentando mostrar o local da tragédia. Ele vivia com a família, que trabalhava em uma grande fazenda, de propriedade do senhor Pietro Ceccarelli, que tinha vindo da Itália, em 1936. Com apenas 15 anos, foi um dos poucos a avistar a aeronave assim que ela caiu. Ele ainda se lembra do som dos motores do avião se aproximando da casa dele. Estava com a família tomando café, quando o barulho chamou atenção de todos.

“Eu virei pro meu pai e disse: olha um avião voando baixo aí. De repente só ouvimos uma grande explosão. Eu e ele corremos para ver o que tinha acontecido, quando chegamos era uma grande bola de fogo. Não podíamos fazer nada, não conseguíamos chegar perto e ainda havia algumas explosões. O fogo durou quase a noite inteira”, relembra seu Álvaro.

Apesar do tempo, 73 anos depois, seu Álvaro ainda tem a lembrança viva daquele dia. Conta que uma das asas do avião ficou a uns sessenta metros de distância, presa em uma árvore e da enorme clareira aberta na mata. No meio do fogo, que chegava até o alto da vegetação muito densa, as únicas coisas que podiam ser vistas, eram os motores do Marimbá. O alumínio que revestia a cabine da aeronave foi consumido pelas chamas. Todos os corpos foram totalmente carbonizados, exceto o do comandante Lins.

“Eu lembro bem, não dava pra conhecer ninguém, não se sabia se era gente ou outra coisa, mas o piloto só  tinha queimado do joelho pra baixo. Era um sujeito grande e forte”, conta seu Álvaro.

Em certa parte da conversa ele corre para dentro de casa e muito entusiasmado traz uma raridade, que revela uma parte pouco conhecida da história. Fotos tiradas no local, dias depois do acidente. Incrivelmente conservadas mostram partes do avião que o fogo não destruiu. Em uma delas, aparece “de calças curtas”, junto com o dono da propriedade e um funcionário da Condor, e bem a frente deles, um dos motores do “Marimbá”. Seu Álvaro sorri, feliz por poder provar sua história com apenas mais do que lembranças.