Guilherme Duarte

Quem esperou até a última semana para ficar em dia com a Justiça Eleitoral teve que ter bastante paciência para encarar as longas filas que se formavam desde cedo na porta do Cartório Eleitoral de Rio Bonito. Apesar do alerta feito pelo chefe do setor, José de Tácio Teixeira, há três semanas em entrevista à FOLHA, centenas de pessoas deixaram para regularizar o título eleitoral nos últimos dois dias do prazo. Na quarta-feira (9), último dia, o tempo de espera ultrapassou as três horas, demora que revoltou a maioria dos eleitores.

Assim como aconteceu em 2008, a fila dobrava o quarteirão. Além do longo tempo de espera, o forte calor que fazia na manhã da última quarta-feira castigava ainda mais quem aguardava para ser atendido. Algumas pessoas chegaram a usar guarda-chuvas para se proteger dos raios solares. Mesmo tendo chegado ao local por volta das 9h, a estudante Francine Ribeiro só conseguiu ser atendida às 11h30. Moradora do bairro de Nova Cidade, em Boa Esperança, a jovem de 16 anos vai participar das eleições pela primeira vez. “Ontem (terça-feira) estive aqui e a fila já estava enorme. Pensei que chegando hoje bem cedo a espera ia ser menor, mas não foi o que aconteceu. Sei que pela minha idade eu não precisaria estar aqui, mas acho importante decidir o futuro da minha cidade”, disse Francine.

No momento em que Francine acabava de ser atendida, a também estudante Ana Cláudia Moraes se dirigia ao final da fila. Ciente do tempo que ficaria aguardando atendimento, Ana Cláudia revelou que chegou a procurar o Cartório uma semana antes, mas devido a falta de documentação não conseguiu tirar o título. “Estive aqui na semana passada, mas esqueci um documento e não pude tirar o meu título. Como nesse mês tiveram dois feriados, só consegui voltar hoje. Com essa fila, acredito que não saio daqui antes das duas da tarde. Meu bairro precisa de muitas melhorias e quero poder eleger um governante que olhe por nós”, afirmou Ana, que é moradora do bairro Parque Andréia. A estudante só foi atendida às 14h40.

Já passava das 18h e a fila não diminuía. Em pé a aproximadamente duas horas, o vendedor Victor Nogueira se arrependeu de ter deixado para transferir seu título no último dia de prazo. “Não acreditei que a fila poderia ficar desse tamanho. Se arrependimento matasse... Tive outras oportunidades de vir ao Cartório, mas, como todo brasileiro, deixei para última hora. Pelo visto não vou sair daqui tão cedo, olha quanta gente ainda tem na minha frente. Mas aprendi a lição e não vou dar mais esse mole”, disse o vendedor sem perder o bom humor.

 

“População mal educada”

 

Indignado com a postura da maioria das pessoas que aguardavam na fila, o chefe do Cartório Eleitoral de Rio Bonito desabafou. “Fomos desrespeitados o dia inteiro. Fomos xingados de tudo quanto é nome. A população de Rio Bonito é mal educada. Fiquei surpreso com a falta de educação dos jovens dessa cidade. Eles não respeitam ninguém e não tem limites. A culpa dessas longas filas não foi nossa. Eles tiveram mais de quatro meses para procurar o Cartório e não fizeram. Aí deixam para o último dia e querem ser atendidos na mesma hora? Isso aqui não é caixa de auto-atendimento. Temos que verificar documentos e fazer o procedimento com calma. A população está mal acostumada, não sabe esperar, quer tudo na mesma hora, mas não é assim que as coisas funcionam. Fomos tratados como lixo”, disparou Tácio.

Outra reclamação foi referente a falta de informação na fila, mas Tácio se justifica. “Eles não se deram nem o trabalho de buscar informações. Na porta do Cartório estavam colados cartazes com a documentação necessária. Se com três funcionários o atendimento já estava precário, imagina se alguém sai daqui de dentro para dar informações na fila. Isso ia virar um caos. Mas uma coisa é certa, a pessoa que deixa para resolver sua situação eleitoral no último dia de prazo tem que sair de casa esperando o pior. Vai enfrentar longas filas, vai sentir calor e vai cansar de ficar em pé. Infelizmente é assim que funciona. Na semana passada não teve nem fila, foi uma média de 50 atendimentos por dia. Na quarta (dia 9), fizemos aproximadamente 450 atendimentos”, explicou.

Ainda de acordo com Tácio, o número de atendimentos no último dia do prazo representa 1% do eleitorado do município. “Foi um ano atípico. Sempre em ano de eleição municipal a procura é maior. Trabalhamos até a madrugada do dia 10. Imagina três pessoas atendendo 450. É complicado. Além disso, ainda existe muita gente que tenta enganar a Justiça, fraudando a declaração de residência. Estou com cerca de 20 processos para verificação de endereço. Caso haja alguma irregularidade, será aberto um inquérito policial para apurar os fatos. Isso é crime eleitoral”, encerrou Tácio.