Lívia Louzada
O concurso da Câmara de Vereadores de Rio Bonito foi cancelado na reunião da última terça-feira (19), depois que o pedido da Mesa Diretora foi aprovado. A decisão provocou revolta não só nas pessoas que se inscreveram no concurso, mas também nos servidores da Casa, já que o Plano de Cargos e Salários dos mesmos, também foi anulado. Segundo informações do presidente do Legislativo, vereador Marcus Botelho (PR), até quinta-feira (21), a Fundação Benjamin Constant, responsável pelo concurso, ainda não havia sido informada oficialmente do cancelamento. Diante disso, o presidente também não sabia informar como as pessoas que fizeram a inscrição farão para receber seu dinheiro de volta.
Alguns vereadores votaram contra a anulação do concurso (Saulo Borges, Humberto Belgues, Carlos Cordeiro Neto e Fernando Soares), pois queriam que ambas as mensagens, a do concurso e a do Plano, fossem separadas e revisadas. Dessa forma, o Plano, que criou os cargos que estavam em disputa, seria revisto e poderia ser reformulado, com outros salários, por exemplo. A partir daí, o concurso também ganharia mudanças e poderia ser feito ainda este ano.
Para o vereador Saulo Borges (PTB), a mensagem de cancelamento do concurso não deveria ser votada em plenário, já que foi um ato administrativo do presidente Marcus Botelho. “O Plano de Cargos criou as vagas. O concurso público é criado por um ato administrativo, que poderia ser feito por vossa excelência (Botelho), por outro presidente no ano que vem, ou poderia ser daqui a quatro anos, mas as vagas já ficariam criadas. Mas o concurso é determinação da presidência ou da Mesa Diretora. Do jeito que está sendo feito, eu não concordo, porque eu acho que vossa excelência, do mesmo jeito que abriu o concurso público, tinha que acabar. Acho que neste caso, o plenário não é o responsável pela anulação do concurso”.
Já a vereadora Rita de Cássia (PP) explicou a posição da Mesa Diretora. “O que está acontecendo aqui, e que precisa ser esclarecido, é que existem equívocos no Plano. Isso (o Plano e o Concurso) tem erros, e se não for agora, na frente, isso vai ser embargado, vai ter que se parar para rever o impacto financeiro”, disse Rita.
Revolta da população
A notícia do cancelamento do concurso repercutiu dentro e fora da cidade, e nas redes sociais, já que muitas das pessoas que se inscreveram, são de outras cidades. Quem se inscreveu reclama da irresponsabilidade de quem criou o concurso, do descaso, do investimento de tempo e dinheiro para estudar, e principalmente, questionam quanto a devolução do valor da inscrição.
Para o jornalista Alexandre Nóbrega, morador de Silva Jardim, todas as questões levantadas desde a criação do concurso, até o seu cancelamento, criaram uma situação vergonhosa. Além das informações de que o concurso seria feito “por sistema de cruzamento entre as Câmaras da região”, para beneficiar os ‘apadrinhados’, segundo o jornalista, a Câmara só teria cancelado a prova, porque o possível ‘esquema’ teria vazado na mídia.
“E quem pagou a inscrição e estudou esse tempo todo? Não dá para confiar, e muito menos votar em pessoas que se dizem ‘representantes’ do povo, mas que não passam de escroques (quem se apodera de bens alheios por manobras fraudulentas). Quero ver se eles vão ter a dignidade de, pelos menos, devolver o dinheiro da inscrição. Seria muito bom se o Ministério Público levantasse esse tapete para ver a sujeira que se esconde embaixo. Alguns desses edis, não têm o mínimo respeito pelos eleitores, e nem na época da eleição eles disfarçam”, desabafa Alexandre.
Já a estudante de Administração, Jaqueline Conceição, de Rio Bonito, disse que fez a inscrição “com o pé atrás”, porque ouvia falar que o concurso era de ‘cartas marcadas’. De acordo com ela, tempo e dinheiro foram gastos para nada, e a situação ainda deixou a Câmara no descrédito. Para Jaqueline, as pessoas viam nesse concurso, um meio de melhorar a situação financeira. “Acho que depois dessa, a população vai pensar duas vezes antes de reeleger esses vereadores”, analisou.
Nas redes sociais
Em uma rede social, a repercussão do concurso foi ainda maior. “É brincadeira! Não dá para acreditar, dessa forma, fica evidente que não há nenhuma seriedade. Pra mim, essa foi uma atitude totalmente inconsequente e desrespeitosa que fere os princípios constitucionais. É lamentável que muitos como eu, tenham pago R$47,00 para se inscrever, e ficarão no prejuízo. Eu tenho certeza que nunca mais vou ver meus R$47,00. Eu quero saber agora, pra que bolso vai esse dinheiro. Isso tinha de ir parar no Fantástico. Enganar o povo pra pegar dinheiro não se faz!”, disparou um internauta.
Já outro usuário da rede, comparou o concurso da Câmara de Rio Bonito, com a matéria da venda de vagas em concursos públicos, exibida pelo Fantástico no último domingo (17). “Cancelaram a tempo, pois a matéria do Fantástico alertou muita gente, e impediu mais um ato de indisciplina de nossos parlamentares. Obrigado a todos aqueles (minoria) que agiram contra essa manipulação de concurso”, disse.
A revolta dos servidores
Por conta do cancelamento do Plano de Cargos e Salários, os servidores da Câmara ficaram revoltados. Uma das funcionárias que não gostou nada da decisão, foi Cláudia Márcia Ribeiro, já que, segundo ela, com o Plano, os funcionários da Casa iriam se aposentar com um “salário digno”. A servidora aproveitou para afirmar que por causa das assessorias que foram distribuídas pelo atual presidente, é que não haverá dinheiro para arcar com as despesas do plano de saúde e dos nos novos salários previstos no Plano de Cargos que foi cancelado.
“Acho isso (o cancelamento do Plano) uma injustiça, porque só tiram da gente que é funcionário. Nós estamos sem o nosso Plano de Cargos, que há 15 anos a gente tem direito, e vereador nenhum briga pela gente. Vão tirar as assessorias também? Por que é por causa das assessorias que a gente não pode ter mais o plano de saúde e o Plano de Cargos. É por causa dessa turma de assessores que a gente nem vê trabalhando”, desabafou.