Flávio Azevedo
Um pedido de socorro da sociedade foi ouvido pelos integrantes do Conselho Comunitário de Segurança (CCS) na reunião do último dia 2 de julho, na Câmara de Vereadores. O músico e ativista Sander, que há oito anos atua com o projeto “Cidadania Viva”, que é desenvolvido nas escolas, apresentou um cenário preocupante da sociedade e comentou que, na atualidade, boa parte da juventude, sobretudo aqueles que vivem em bairros da periferia, tem o bandido como referência. “Já vi isso acontecer em escolas da nossa cidade, as diretoras estão pedindo socorro, mas em várias oportunidades, por conta da falta de tempo dos pais, o desinteresse do poder público e a omissão dos demais setores, a questão não é encarada como deveria”, analisa.
Para o ativista, cada bairro tem a sua peculiaridade, situação que talvez não esteja sendo percebida pelas autoridades. “Em Nova Cidade, por exemplo, o consumo de drogas é alto. Segundo informações que obtive na localidade, o consumo de drogas nos fins de semana é muito grande, vários jovens da localidade são usuários de drogas, os educadores acabam ficando reféns dessa situação e muitos não sabem lidar com esse quadro”, destaca Sander, que aponta a influência da mídia e do ritmo Funk, que em algumas oportunidades fazem apologia as drogas e a violência.
– Eu já pude constatar em algumas escolas que o criminoso é o herói dos adolescentes. Meninos que admiram o crime. Geralmente eles se retratam vestidos com um tênis Nike, uma camisa Adidas, um pente e um fuzil atravessado no peito, uma pistola nas costas e isso deixa o garoto super feliz. O nosso propósito é exatamente desmotivar essa atração – afirma Sander, destacando que cenários semelhantes podem ser encontrados em Boa Esperança, em Praça Cruzeiro, “mas tudo sempre motivado pela degradação da família”.
Bairro Monteiro Lobato
Do bairro Monteiro Lobato (BNH) vem outro clamor. Uma mãe, que também é funcionária da escola da localidade (Escola Municipal Dr. Albino Thomaz de Souza Filho), literalmente pediu socorro para uma série de problemas que estão acontecendo no bairro e que acabam refletindo na unidade escolar. Segundo ela, “embora os problemas tenham sido informados às autoridades nada foi feito”. Com voz embargada, visivelmente emocionada, ela fez um relato desesperador. A sua narrativa expõe situações que se analisadas com o mínimo de lucidez percebe-se que ela tem razão em estar apreensiva.
– Estamos passando por uma situação muito difícil... Tem gente fumando maconha na porta colégio, o que faz as pessoas ficarem com medo de entrar e/ou sair da escola... Às vezes, pais de alunos são agressivos com a equipe da escola... A diretora já pediu um guarda municipal, mas disseram que não tem guarda disponível. A verdade é que nós estamos com medo até de chamar os pais para tratar dos problemas dos filhos e sermos agredidas dentro da escola ou no trajeto que fazemos quando estamos indo embora para as nossas casas – denunciou a mãe.
A narrativa desesperada da mãe não parou por aí. Ela disse que o seu filho, um menino de seis anos, que também estuda na escola, foi agredido com um soco por outro menino, também de seis anos, “mas não há o que fazer”. De acordo com a mãe, sabendo da questão social que envolve a família dessa criança, ela recorreu ao Conselho Tutelar, “porque a mãe do menino está presa, o pai está morto... O Conselho Tutelar, porém, disse que nada poderia ser feito”. Ainda segundo a mãe, até o Ministério Público já foi informado, mas não deu resposta. “O responsável da criança é uma avó, que cuida de outra criança deficiente”, disse a mãe, reiterando que “esse é apenas um dos casos preocupantes que existe na unidade, que por conta da complexidade foge do controle da direção da escola, porque as crianças do bairro estão largadas”.
Outra moradora da localidade comentou que a angústia da mãe procede. Ela acrescentou que a localidade está passando por sérios problemas e reiterou que o bairro carece, há muito tempo, de ações mais amplas do poder público. “Vejo coisas de horrorizar acontecendo nessa escola. As meninas estão trabalhando e as crianças estão batendo nelas. Elas estão desempenhando as suas atividades, mas as crianças estão pulando o muro, estão aprontando todas... Eu já conversei com a diretora, ela me disse que já fez o que está ao seu alcance, mas não obteve resposta”, acrescentou.
No último dia 12 de julho, na 3ª reunião da Escola de Pais, iniciativa da direção da unidade para aproximar família, estudantes e escola, poucos pais compareceram ao encontro, que contou com a participação do músico e ativista Sander; e do diácono católico, Ronaldo Osório. De acordo com os organizadores, “não iremos desistir do nosso ideal, porque temos plena consciência ser essa uma iniciativa que precisa de persistência e que só frutifica em logo prazo”.
Ação conjunta
O presidente do CCS, Brunos Soares comentou que para resolver essa questão é preciso que uma força conjunta das autoridades (em todas as esferas de poder) com a sociedade (através das suas instituições – entidades de classe e igrejas) seja implementada. “Reconheço que essa questão é complexa, sei que esse deve ser o cenário de outros bairros, mas precisamos dar uma resposta para essa mãe que está pleiteando a nossa ajuda. Precisamos movimentar os órgãos competentes a ir até essa localidade com força ostensiva, educativa e com instrumentos de conscientização para que esses problemas sejam, pelo menos, amenizados”, discorreu o presidente.
Opinião
Criminalizar a Escola Municipal Dr. Albino Thomaz de Souza Filho não é inteligente. Fica muito nítido que a história não é um fato isolado e que é patente a falta de políticas públicas nessa direção. Na reunião do CCS de Maio, por exemplo, um dos temas do encontro foi a agressão a um dos professores da mesma escola. O agressor teria 14 anos e teria jogado uma cadeira sobre o professor. Já no dia 21 de fevereiro de 2011, no Colégio Municipal Dr. Astério Alves de Mendonça, um revólver foi encontrado na mochila de um aluno de 13 anos. O assunto também repercutiu no CCS.