Liberdade! Abra as asas sobre nós!

Eu não sei quantos dos leitores perceberam, mas esse ano, o mês de novembro foi diferente de anos anteriores. Para quem não observou, a diferença esteve na comemoração do Dia da Consciência Negra, feriado importante e merecido, que visa quebrar uma série de preconceitos que não podem mais existir em nossos dias, mas existem. Dessa vez, houve mais divulgação, e o dia 20 de novembro foi marcado por comemorações em todo País, que focaram temas como a igualdade social e outros assuntos dessa natureza. Muito bom!

O outro feriado do mês que também é muito importante é o dia da Proclamação da República. Comemorado no dia 15, essa data que deveria ser um divisor de águas na história política do Brasil não é tratada com o devido respeito.
Ambas as datas representam lutas que talvez não tenham alcançado seus objetivos ideológicos e tudo mais que representam.

A Consciência Negra homenageia Zumbi dos Palmares, último líder do maior Quilombo que se tem notícia na história, de 1678 a 1694. Zumbi nasceu livre em Palmares no ano de 1655. Capturado aos seis anos de idade, ele foi batizado com o nome de Francisco pelo missionário português a quem foi entregue. Aprendeu português e latim, e ajudava no ofício da missa. Aos 15 anos Zumbi fugiu e retornou a Palmares tornando-se líder do Quilombo em 1678. A sua notoriedade, aconteceu por ser chefe do Quilombo cuja resistência durou mais de 100 anos. De acordo com pesquisadores, o Quilombo dos Palmares tinha o tamanho de Portugal e possuía cerca de 30 mil habitantes. Estava plantado na Serra da Barriga, no Estado de Alagoas, onde os refugiados viviam em um regime republicano ou coisa semelhante. A fundação de Palmares está datada em 1580 e sua destruição aconteceu em 20 de novembro de 1695, quando Zumbi foi morto pelo bandeirante Domingos Jorge Velho, sua cabeça fincada em uma estaca e exposta em praça pública, para que os escravos não mais acreditassem no mito de que Zumbi era imortal. Sem a sua liderança o Quilombo foi totalmente desfeito em 1710.

De acordo com historiadores, através do comércio de escravos, o Brasil recebeu cerca de sete milhões de africanos. Os negros lutaram bravamente contra a escravidão durante aproximadamente 300 anos, até que as filosofias da Revolução Francesa em 1789 (liberdade, igualdade e fraternidade), começassem a produzir os primeiros abolicionistas. Cerca de 110 anos depois da Revolução Francesa – em 13 de maio 1888 – a princesa Isabel assinou a lei Áurea.

Não sei quantos conhecem os bastidores desses acontecimentos, mas o escritor Raul Pompéia conta em um dos seus livros, que a popularidade do império para com os negros foi tão grande, que quando D. Pedro II retornou da viagem (por isso a princesa assinou a Lei, ela governava no lugar do pai), o Paço Imperial foi invadido pelos libertos. A alegria era tamanha, que precisaram ser contidos pela polícia, para que se vestissem antes de aproximarem-se do imperador. “Entre eles estava à figura altiva do príncipe Obá, um negro de estatura colossal que dizia ser um rei africano”, narra o escritor.

No entanto, enquanto a popularidade do império aumentou com as classes populares, passou a existir uma profunda antipatia dos grandes latifundiários para com a família Real – pois foram os principais prejudicados com a perda da mão-de-obra escrava e gratuita em suas terras – o que acendeu o estopim da Proclamação da República ocorrida apenas um ano depois (1889). Os proprietários de terra, com medo que a princesa Isabel, após a morte de D. Pedro II continuasse fazendo reformas em benefício das classes populares, trataram de bolar uma estratégia que acabasse com o império.

É importante ressaltar, que assim como a Lei Áurea tinha objetivos libertários, a Proclamação da República foi anunciada pelos republicanos, como um regime que traria liberdade para uma nação que era “escravizada pelo império” e os seus gastos absurdos.

Passados mais de 100 anos da ‘Lei da princesa Isabel e da ação do Marechal Deodoro da Fonseca’, pergunto: “onde está a liberdade dos negros e a economia do regime republicano”?

Vamos analisar...

Sobre os negros, eles foram jogados na sociedade sem nenhum planejamento, diferente do que ocorreu nos Estados Unidos, onde cada um recebeu uma indenização para que pudesse se estabelecer. Em busca de trabalho para se sustentar, os ex-escravos abandonaram os campos e foram para os grandes centros, morando em cortiços (as favelas do início do século), à margem dos membros da elite.
Passados outros cem anos, a fenotipía ainda é motivo de discriminação em qualquer classe social, por isso, o Dia da Consciência Negra deveria se chamar “Dia da Consciência Branca”. Aliás, deveriam existir datas comemorativas para todos que colaboraram para a formação desse imenso e diferente Brasil. Os ameríndios ou índios, já possuem seu dia (19 de abril), mas e o europeu português, os europeus de outros países – os italianos, alemães, e outros, que para nossa nação vieram no fim do século XIX – e os asiáticos, que também colocaram sua marca nessa colcha de retalhos que é a cultura brasileira, segundo o antropólogo Roberto DaMatta. A nossa cultura é a depuração de todos esses costumes, práticas e crenças.

Sobre a chegada da república em nosso território, é preciso ressaltar que a jovem república não dispunha de um Chefe de Estado que a administrasse satisfatoriamente para negros, mestiços e brancos, pobres e ricos, empregado e patrão, vagabundo e polícia, soldado e oficial. A história revela que a Proclamação da República foi precipitada. Além disso, foi um movimento de alguns. Os populares que assistiram questionavam: “O que fazem ali aqueles homens uniformizados com os seus cavalos”? Resposta: “Estão proclamando a república”. O que suscitou outra pergunta: “Qual o crime dessa senhora, foi coisa muito grave”?

O detalhe é que aqueles que tentaram fazer alguma coisa, como nos dias de hoje esbarraram na vontade dos grandes proprietários de terra. Assim, a república em vez de proporcionar liberdade, fez pior que a monarquia, continuou escravizando o país com os privilégios de seus governantes. Agora, além do imperador (presidente), o País ganhou de contrapeso um número maior de deputados e senadores.
É ou não é escravidão? Imagine você, que o trabalhador que dá duro, no fim do mês recebe R$ 350 e um deputado federal custa cerca de R$ 90 mil por mês aos cofres do País (dado revelado pela cientista política Lúcia Hipólito, no quadro Por Dentro da Política da Rádio CBN). O ponto discutido pela comentarista era o aumento de 91% solicitado pelos deputados. Imagine que só na Câmara Federal existem 513 deles. Faça as contas, será quanto que dá 90 mil vezes 513? Por isso eu sugiro o canto: “Liberdade, Liberdade... Abre as asas sobre nós”...