Lívia Louzada

Depois de ter o marido preso, em 2010, sob a acusação de extraír ilegalmente madeira para produção de carvão, Elizangela Correa Moreira do Amor Divino, de 33 anos, deu a volta por cima e hoje é empreendedora individual, e proprietária de uma pequena fábrica que produz, principalmente, o produto pelo qual ficou conhecida, a banana chips. Foi através da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (FAPERJ), da Felicíssimo & Ramires Consultoria, da Emater-Rio de Rio Bonito, de empresários de Rio Bonito e da Secretaria Municipal de Meio Ambiente (na época dirigida pela ex-secretária Carmem Motta), que a ex-carvoeira conseguiu alavancar o projeto de produção de banana chips, que hoje ajuda no escoamento da produção de banana na localidade de Braçanã, onde mora, tira o sustento da família, e ainda protege a natureza reciclando o que seria descartado.


De carvoeira a protetora da natureza

Quem conhece Elizangela e sua família hoje, não imagina como tudo começou e porque ela passou de carvoeira a protetora da natureza. Em 2003, ela e seu marido, Jocemir Brantis do Amor Divino, de 38 anos, começaram desmatar para produzirem carvão. De acordo com Elizângela, a produção do carvão não foi uma opção, mas sim a saída que encontraram para sustentar as duas filhas, Juliana, que hoje tem 17 anos, e Heloiza, com 6.

“Por conta de um acidente de trabalho com meu marido, há anos, que até hoje não recebeu indenização, ele não conseguia arrumar emprego com carteira assinada, então a gente teve que achar uma saída. A gente trabalhava muito, até de madrugada, quase 12h por dia. Vivíamos encardidos de carvão e não tínhamos tempo pra nada, mas como o carvão rendia um bom dinheiro, não pensávamos em parar”, explicou.

Tudo estava dando certo para a família, até que em agosto de 2010, Jocemir foi preso em flagrante pela Polícia Florestal. Ele foi pego quando iria entregar uma parte da produção de carvão. Jocemir foi levado até a 119ª Delegacia de Polícia de Rio Bonito, autuado por crime ambiental, pagou fiança e foi liberado depois de algumas horas de prisão. O que para muitos seria mais uma prisão, para a família de Elizângela foi uma tragédia.

Dando a volta por cima

Depois de alguns dias de sofrimento, ela e o marido começaram a pensar o que fazer para conseguirem sustentar a família. Como Elizangela já havia feito o curso de beneficiamento da banana, promovido pela Emater-Rio de Rio Bonito, em que aprendeu a fazer não só a banana chips, mas também a banana passa e outras, foi impossível descartar a possibilidade de tentar usar a banana como fonte de renda. “Não olhei dificuldade, só olhei a diante, porque se eu colocasse dificuldade, não estava onde estou”, diz.

A primeira produção de banana chips foi modesta, apenas 10 sacos pequenos, que foram oferecidos aos donos de um bar próximo a sua casa. Em poucas horas, a dona do bar voltou à casa de Elizangela e pediu mais sacos, já que seus clientes haviam aprovado o petisco. A partir daí surgiu uma luz no fim do túnel. A banana verde, que ela utiliza para fazer o produto, é comprada de produtores da localidade, a preços mais em conta do que se tivessem vendido a atravessadores. Elizangela então vendeu uma máquina de costura para comprar uma seladora e seu marido lhe deu uma fritadeira.

Mas apesar do sucesso inicial, a produção era pouca por conta dos poucos recursos. Mas como ela mesmo diz, “Deus colocou mais um enviado dele em nossas vidas”. Em mais um dia de operações da Polícia Florestal em Braçanã, Elizangela se encheu de coragem e foi mostrar a um dos policiais, que haviam mudado de vida, e que estavam tentando viver daquela produção, apesar das dificuldades. Ela ofereceu a banana chips a eles, e os policiais aprovaram o produto. A banana fez tanto sucesso que um dos policiais procurou a ex-secretária de Meio Ambiente, Carmem Motta, e pediu que a Secretaria fizesse algo para ajudar na produção de Elizangela.

Foi montado um projeto pela Emater-Rio, encaminhado para a FAPERJ e os recursos começaram a sair. Hoje, a ex-carvoeira tem no quintal de casa, uma agroindústria familiar, um galpão de 80 m², com escritório, sala de embalagem, sala de processamento, sala de arquivos, área para guardar a banana, onde ficam a fritadeira, fatiador elétrico, e a máquina para moer grãos. A empreendedora produz banana chips salgada e doce, nas versões lisa, ondulada e palha, em dois tamanhos de pacotes, e em breve começará a fazer banana passas, e farinha de banana. (

Segundo o agrônomo da Emater-Rio, Licínio Louzada, hoje Elizangela também ajuda os produtores de banana da localidade onde mora, pois compra a produção deles. Além disso,  ela não desmata mais, recicla o óleo em que frita a banana, produzindo sabão de lavar louças, e vende o detergente reciclado. “Conseguimos o maquinário e a estrutura para ela trabalhar, agora é com ela. O caso de Elizangela é um ótimo exemplo para as pessoas que não acreditam na força que a área rural tem. Se o produtor tiver vontade e correr atrás, não precisará sair da localidade para tentar a vida na cidade. A função da Emater é exatamente essa, ajudar a transformar o lugar e a família, para que eles mudem a forma de pensar”, analisa o agrônomo.

“O que passamos foi uma experiência, e aprendemos com isso, com a marca que Deus nos deixou. Agora eu e minha família vamos agarrar o que conquistamos, vamos crescer, e não vamos voltar atrás. Se alguém denunciou o nosso trabalho como carvoeiros, hoje agradeço a essa pessoa, pois a partir disso, é que hoje preservamos o espaço onde vivemos”, diz Elizangela.

Atualmente Elizangela vende banana chips para alguns comércios da cidade, possui licença ambiental da indústria, e está precisando apenas de doação de móveis para escritório, computador e impressora, para terminar sua indústria. Quem tiver interesse na comercialização do produto dela, ou puder ajudar com as doações, pode entrar em contato com ela através dos telefones, (21) 3634-3154 e (21)9706-1984.