Inversão de Papéis

A morte inominável do menino João Hélio Fernandes, de seis anos, na noite do dia sete de fevereiro, deixou estarrecida a sociedade brasileira. A inocente criança foi arrastada durante 15 minutos, por sete quilômetros, agarrada ao cinto de segurança do veículo, como se fosse um Judas em Sábado de Aleluia. A indignação do Brasil foi explicitada na imprensa, que cobriu as muitas manifestações ocorridas em memória do menino e em um protesto pedindo paz. Discussões acaloradas dominaram a mídia. Teóricos, especialistas no assunto e criminalistas, tentavam em vão explicar o que teria motivado tamanha fúria dos cinco rapazes.

Alguns atores bem tradicionais que estão intrínsecos na sociedade brasileira foram identificados como responsáveis pela violência: o falido sistema educacional brasileiro; a corrupção; a impunidade; e outras mazelas conhecidas por todos nós. O assunto esteve em pauta durante várias semanas nos grandes órgãos de imprensa. Mas quando as opiniões não estavam mais sendo emitidas no calor do acontecimento, e aproximava-se a lucidez que explicaria o motivo de tamanha atrocidade, o tema arrefeceu-se e perdeu força diante de outros fatos horripilantes, como as operações da Polícia Federal, os escândalos no Congresso, o apagão aéreo e no Senado, ou até mesmo pela importante e histórica visita do Papa Bento XVI ao Brasil.

Mas eis que na madrugada do último domingo (24), a doméstica Sirley Dias de Carvalho Pinto, que foi brutalmente atacada, às cinco horas da manhã, em um ponto de ônibus, enquanto pretendia ir ao médico, trouxe de volta o debate. A doméstica foi espancada também por cinco jovens, só que eram de classe média. A inversão dos papéis está exatamente aqui. Enquanto no caso João Hélio, um representante da classe média foi agredido por membros da periferia, no caso da doméstica, a agressão foi levada a efeito por representantes da classe média, que além de residirem em condomínios de luxo, são “crianças, que tem em média 20 anos de idade, são universitários e trabalhadores” – como disse o ‘emocionado’ pai de um dos agressores.

Eu não gostaria de ser monocórdio – pois já abordei esse assunto em um artigo recente – mas é interessante ressaltar que as discussões que tentam explicar ou definir o porque dessa explícita violência no Rio, quase sempre não abordam a real motivação da fúria desenfreada latente nos jovens. Só para uma ligeira reflexão, a violência está presente nas comunidades mais abastadas e mais carentes; é praticada por quem tem acesso a boa educação ou não. Está bem claro e muito evidente, que o vilão da história não é apenas a omissão do governo... Sobra uma boa fatia de culpa para os pais.

É lógico que não são todas as famílias e todos os pais os culpados. Ainda encontramos muita gente séria e honesta que sabe dar limites e influenciar os seus filhos para o bem. No entanto, alguns não estão sabendo transmitir aos filhos os valores e princípios morais da decência e do respeito a vida e ao semelhante. Salta aos olhos de qualquer pessoa que tem um melhor poder de observação, que muitos pais estão perdidos e confusos sobre a maneira ideal de educar seus filhos. Eles desconhecem a diferença entre nomes semelhantes: autoridade e autoritário.

O Dicionário Escolar da Língua Portuguesa do Catedrático de língua e filosofia portuguesa da Universidade de São Paulo (USP), Francisco da Silveira Bueno, define autoridade como: “forma de superioridade constituída por uma investidura; direito de fazer obedecer; domínio; influência; prestígio. Pessoa que tem grande competência em um assunto”. Já a palavra autoritário é definida como: “que tem o caráter de dominação; impositivo; violento; arrogante”.

Será que deu para identificar a diferença entre as palavras? A autoridade é conquistada e geralmente com o uso de duas importantes ferramentas: a influência e o exemplo. Já o autoritarismo é imposto pela força e pelo medo. Sem falar no antigo “faça o que eu digo e não faça o que eu faço”. Ser pai ou ser mãe é um sacerdócio. Enquanto os candidatos a essas funções tão sagradas não perceberem que para exercê-las, é preciso inteira dedicação, experiência, renúncia, altruísmo e um mínimo de preparo psicológico, físico, financeiro e familiar, a sociedade brasileira vai continuar sendo surpreendida periodicamente por esses acontecimentos grotescos, que vem se tornando uma constante em nosso dia-a-dia. Como dito anteriormente, nós não devemos e não podemos generalizar, mas com certeza, essas atitudes violentas e agressivas que nós estamos vivenciando, refletem a ausência de valores na formação do cidadão pela família.