Flávio Azevedo

À frente da Delegacia de Rio Bonito (119ª DP) desde o dia 10 dezembro de 2006, o delegado Ademir Oliveira Silva, de 62 anos, possui uma vasta experiência policial, acumulada ao longo de 40 anos de serviço. Dirigindo a sua oitava delegacia, ele é bacharel em direito e tem como marca a rapidez com que conclui os inquéritos em que trabalha. O delegado recebeu a reportagem da Folha da Terra em seu gabinete, no último dia 21, quando falou sobre a difícil tarefa de comandar uma delegacia e sobre o crescimento da violência em Rio Bonito e no Estado do Rio, entre outros assuntos. Ele destacou a prisão de Marcos Rodrigues Marques da Silva, o Marquinhos ‘Miagui’, mentor dos dois assaltos a joalheria Caetano Jóias, em maio e dezembro do último ano, como uma de suas principais ações à frente da delegacia. Oliveira reconheceu que, além do progresso, o Pólo Petroquímico do Estado do Rio de Janeiro (COMPERJ) pode aumentar o índice de violência na região, e disse que falar sobre as dificuldades que enfrenta na 119ª DP “é chover no molhado”.

Folha da Terra: Que balanço o senhor faz do seu trabalho desde que assumiu a Delegacia de Rio Bonito?

Ademir Oliveira: Estou aqui há seis meses. Quando cheguei, eu encontrei a delegacia com uma boa quantidade de inquéritos paralisados. Conseguimos relatar um grande número deles, seguindo a orientação do nosso Chefe de Polícia, que seria de concluir as investigações. Com isso, relatamos vários inquéritos, que foram submetidos ao Ministério Público, para que ele oferecesse a denúncia, representando por algumas prisões preventivas, que foram aceitas e decretadas pela Juíza da 2ª Vara Criminal da Vara de Rio Bonito. Enfim, dentro das nossas limitações materiais e humanas, penso que estamos fazendo um trabalho satisfatório no município. É importante só ressaltar, que estamos notando nos últimos três meses um aumento do índice de crimes, especialmente de roubo a sítios e residências. Diante disso, estamos trabalhando junto com o comandante do 35º Batalhão da Polícia Militar (Itaboraí), Tenente-Coronel Nilton Lourenço, para solucionarmos alguns desses casos. Ele colocou a nossa disposição uma equipe da P2, para que fizéssemos algumas diligências que são necessárias, para descobrir os autores desses roubos. Outra coisa que posso ressaltar da minha administração, foi a solução do roubo da Joalheria Caetano Jóias. Nós pedimos a prisão preventiva de um dos autores, e esse processo está em fase final na 2ª Vara Criminal de Rio Bonito. Provavelmente ele deverá ser condenado.

FT: Quais as maiores dificuldades que o senhor enfrenta na 119ª DP?

AO: Relatar as dificuldades da delegacia é chover no molhado. O que eu passo aqui é uma constante em toda Polícia Civil do Estado do Rio de Janeiro. Inclusive, o nosso chefe de polícia, o doutor Gilberto Ribeiro, por diversas vezes já manifestou a opinião dele, afirmando que existe carência de policiais. Tanto que existe – salvo engano – a possibilidade de novos concursos para suprir essas dificuldades de recursos humanos. Nós estamos em um município não muito grande, o efetivo não é o suficiente, mas dentro das nossas limitações, nós tentamos prestar o melhor serviço à sociedade.

FT: Quantos policiais e viaturas a 119ª DP dispõe? É suficiente?

AO: O recurso humano e o número de viaturas, realmente são insuficientes. Mas a chefia de Policia Civil, através do Diretor do Departamento de Polícia do Interior, já sinalizou com a possibilidade da Delegacia ser reforçada com recursos humanos e viaturas.

FT: Quando o senhor chegou à Rio Bonito, a sua principal referência era de ser campeão em conclusão de inquéritos. Em Itaperuna, o senhor concluiu 400 inquéritos em quatro meses. Esse perfil continua?

AO: Isso veio da minha origem de escrivão de polícia, então a minha carreira sempre foi pautada em trabalhar inquéritos. Nós realmente nos dedicamos à conclusão deles, para que o Ministério Público possa oferecer a denúncia e não haja impunidade. Dentro das limitações da delegacia, já estamos com um bom número. Não é a quantidade ideal, mas é o suficiente para as dificuldades da 119ª DP.

FT: Para os Riobonitenses, um dos cartões postais negativos da cidade é a fachada da delegacia e a quantidade de veículos apreendidos, que ficam na frente da 119ª DP e vão se deteriorando com o tempo. Qual a solução para esse problema?

AO: Dependemos de uma integração com a Prefeitura Municipal. Quando eu cheguei à cidade, tive a notícia da existência de um depósito onde esses carros eram colocados. Mas esse depósito estaria sendo transferido para um outro local, por isso, nós ainda estamos com esses carros na frente da delegacia. Tão logo a Prefeitura disponibilize um depósito, com certeza esses carros sairão da frente da delegacia.

FT: O senhor acredita que a repressão aos criminosos na capital faz com que eles migrem para o interior?

AO: Essa também é uma preocupação em razão do Pan-americano. Sempre que existe repressão ao crime na capital, alguns criminosos vão para o interior, por isso, nós vemos um pequeno aumento da criminalidade. Mas, tão logo esse evento esportivo se encerre, as coisas voltam a sua normalidade.

FT: A Polícia Militar tem realizado algumas blitzes no município. As ações visam fiscalizar os motociclistas e motoristas, que insistem em trafegar sem os acessórios de segurança e documentos obrigatórios. O senhor acha que isso é válido no combate a violência?

AO: Sim. É uma das atribuições da Polícia Militar. O comandante Nilton é uma pessoa dedicada, tem uma área de atuação muito grande. Segundo uma reunião que nós tivemos essa semana, ele estaria destacando mais uma viatura para Rio Bonito na próxima semana, o que com certeza vai ajudar na diminuição dos crimes que aqui acontecem.

FT: Alguns crimes em Rio Bonito nunca foram solucionados, como o assassinato da tradicional comerciante Senhora Chicre Antônio, popularmente conhecida como Senhorinha, que ocorreu há alguns anos. O que o senhor pode falar a respeito?

AO: Eu não sei desse inquérito... Se ainda está tramitando aqui pela delegacia... Mas com certeza vou procurar saber com a chefe do cartório sobre o andamento desse inquérito para ver se chegamos a uma solução.

FT: O atentado contra o prefeito José Luiz Alves Antunes, em agosto de 2006, e o assassinato do milionário da mega-sena Renné Sena, em janeiro deste ano abalaram Rio Bonito. O senhor acredita que o município está se tornando uma cidade violenta?

AO: Foram crimes pontuais, não mudam o perfil do município. Não tenho muito a falar a respeito, porque não é uma situação que cause preocupação aos Riobonitenses.

FT: O crime da mega sena, antes de ser transferido para a Delegacia de Homicídios (DH) no Rio de Janeiro, foi investigado pelo senhor. Recentemente fatos novos têm surgido. O senhor acredita que pode haver uma reviravolta no caso, com aparecimento de novos suspeitos?

AO: Não posso falar nada a respeito, porque a partir do momento em que o inquérito foi transferido para a Delegacia de Homicídios, eu perdi o contato com a investigação. Eu não sei na verdade, o que ocorreu ou está ocorrendo na DH. Acredito que informações a respeito desse inquérito podem ser obtidas com o promotor e com a juíza da cidade.

FT: Esse foi o crime de maior repercussão que o senhor já trabalhou?

AO: Não. Foi um dos inquéritos... Um dos fatos mais importantes.

FT: Os Riobonitenses estão divididos com a chegada do Complexo Petroquímico (COMPERJ), que está vindo para Itaboraí. Fala-se em aumento da oferta de empregos, mas também sobre um possível crescimento desordenado, que traria como principal conseqüência o aumento da violência. O senhor acredita nessa possibilidade?

AO: É lógico que preocupa. Afinal, todo progresso tem o lado bom e o lado ruim. Mas o poder público deverá adotar algum planejamento, no sentido de coibir qualquer tipo de violência ou tráfico, que porventura chegue com a implantação do COMPERJ.

FT: A Polícia Civil já está planejando alguma ação preventiva sobre esse provável aumento da violência na região?
AO: Amanhã (sexta-feira, 22), estou convocado pelo Secretário de Segurança Pública do Rio de Janeiro, para uma reunião às 15h em Itaboraí. Eu não sei qual é o tema, mas acredito esse assunto será discutido.

FT: O senhor é a favor da unificação das Policias Militar e Civil. Por quê?

AO: As Policias Civil e Militar devem trabalhar integradas sim, unificadas não. Acredito que cada um tem a sua função já definida pela Constituição.