Alfonso Martinez
Produção de mudas cítricas; identificação e controle alternativo e químico de pragas e doenças; como preparar a calda sulfocálcica e a calda bordaleza, defensivos sem agrotóxico que resultam em produtos mais saudáveis para os consumidores; e que cuidados se deve ter com o uso de agrotóxicos e as embalagens vazias, foram alguns dos ensinamentos passados pelos engenheiros agrônomos da Emater-Rio Evaldo Rui de Souza Lima (Cachoeiras de Macacu) e Jorge Ferreira de Souza (Araruama) e pelo Coordenador Estadual da Defesa Sanitária Vegetal, engenheiro agrônomo Renato Machado Ferreira, durante o Encontro Técnico para Citricultores, realizado nos últimos dias 28 e 29, nas localidades de Mata e Rio Seco, respectivamente, em uma iniciativa conjunta da Prefeitura de Rio Bonito, através da Secretaria de Agricultura, e da Emater-Rio local. O evento contou com o apoio da Secretaria Municipal de Meio Ambiente.
Cerca de 75 produtores rurais de Rio Seco, Mata, Tomascar, Catimbau Grande, e Catimbau Pequeno participaram do encontro, aberto na terça-feira, dia 28, às 13 horas, na Escola Municipal da Mata, com uma palestra técnica proferida pelo engenheiro agrônomo Jorge Ferreira de Souza, especialista em citrus, que falou sobre a produção de mudas cítricas, como fazer o plantio correto, como identificar as pragas e doenças que atacam as plantações, esclareceu sobre o controle alternativo e químico, além dos tipos de irrigação localizada e o manejo correto nas lavouras. Já o segundo dia (29) do encontro, realizado no Sítio do Heitor (Vadil), em Rio Seco, foi dedicado a demonstrações práticas com a ajuda de frutas e galhos contaminados por pragas e doenças. Jorge Ferreira de Souza usou as frutas e galhos para mostrar a ação de doenças como a Leprose, Pinta Preta, CVC, Melanose, Falsa Ferrugem e Fumajina e pragas como a Mosca da Fruta, o Pulgão e o Piolho Branco, que costumam atacar as lavouras e causar sérios prejuízos aos produtores.
“A CVC (Clorose Variegada dos Citrus, também conhecida como Amarelinho) é uma das piores doenças que atacam as laranjeiras. Ela é causada por uma bactéria que obstrui os vasos da planta, não deixando passar água e nutrientes. Ainda não se tem um defensivo contra isso, mas pode-se fazer uma boa poda na forquilha para que surjam galhos novos”, sugeriu Jorge Ferreira. Já contra o Ácaro da Leprose, ele lembrou que a Calda Sulfocálcia (“quando muito bem preparada”, disse) pode ser utilizada com boa resposta, mas que é necessário a retirada dos frutos contaminados do chão para que a doença seja controlada. Já contra a Pinta Preta foi recomendado o uso da Calda Bordaleza, como uma das alternativas.
No segundo dia aconteceu também a palestra do engenheiro agrônomo Evaldo Rui de S. Lima, que mostrou na prática como são feitas a Calda Bordaleza e a Calda Sulfocálcia, defensivos que são preparados à base de sulfato de cobre e cal hidratada (na demonstração, ele utilizou cal virgem, que também pode ser usado) e enxofre e cal hidratada (sulfocálcica), produtos que podem ser usados preventivamente contra algumas doenças e pragas e até no tratamento. No caso da Calda Bordaleza, ele explicou que se o produto ficar ácido pode causar fitotoxidade às plantas, “mas neste caso a calda pode ser corrigida com um pouco mais de cal”, disse Evaldo, que utilizou na demonstração 1 quilo de sulfato de cobre e 1 quilo de cal, além de 100 litros de água, para fazer a Calda Bordaleza.
Já na calda sulfocálcica, o engenheiro utilizou 5 quilos de enxofre e 2,5 quilos de cal virgem, que depois de interagirem por alguns minutos, foram misturados à água e a seguir colocados para ferver em um latão de 200 litros. A calda só ficou pronta quando atingiu uma cor escura, após cerca de 40 minutos. Ele recomendou que os produtores utilizem macacão, máscara, viseira e botas como proteção, já que a reação dos produtos pode provocar alergias, “principalmente em quem sofre de asma e bronquite”, explicou.
De acordo com Evaldo Lima, o produto, que só pode ser utilizado a partir do dia seguinte, pode ser guardado por até um ano em recipiente de vidro escuro ou envolto em um plástico preto, “pois ele se degrada quando exposto à luz”, alertou. Ele lembrou ainda que “a maioria das pragas são resultantes do desequilíbrio ecológico, e os agrotóxicos contribuem muito para isso”.
Ainda no segundo dia, o Coordenador de Defesa Sanitária Vegetal, Renato Ferreira, falou sobre o uso de agrotóxico e o que fazer com as embalagens vazias. Ele explicou que as embalagens devem ser devolvidas ao posto de coleta mais próximo (atualmente só existem postos em Campos, Paty do Alferes e Nova Friburgo, mas a loja Central Rio Agropecuária recolhe as embalagens de agrotóxicos vendidos por ela, em Rio Bonito) ou às revendas, e que as mesmas, antes, devem passar pela tríplice lavagem (lavar as embalagens com água três vezes seguidas, com o líquido que sobra sendo utilizado na bomba de pulverização), e depois serem furadas na parte de debaixo para que não sejam reutilizadas. “As embalagens devolvidas nessas condições são utilizadas na confecção de cordas, conduítes e baldes de óleo, entre outros artigos”, disse ele, mostrando os novos produtos feitos a partir das embalagens trituradas. De acordo com Ferreira, as embalagens não devem ser destruídas no fogo, enterradas ou reutilizadas, pois podem causar sérios danos ao meio ambiente e à saúde.
“Quando comprar esses produtos, que são classificados como extremamente tóxicos (cor vermelha), altamente tóxico (amarela), medianamente tóxico (azul) e pouco tóxico (verde), o produtor deve armazená-lo em lugar fechado, longe de alimentos de animais e ferramentas, e longe das crianças”, alertou ele.
Produtor: “vale a pena usar os produtos sem agrotóxicos”
O produtor rural Romero Ribeiro Silva, de 38 anos, um dos proprietários do Sítio Capim Melado, em Rio Seco, disse que foi esclarecedor o Encontro Técnico. “Eu estou aprendendo como fazer a calda sulfocálcica e a calda bordaleza e acho que, apesar de trabalhosas, vale a pena fazer. Vamos testar para ver os resultados, pois são produtos sem agrotóxicos, que vão causar menos mal ao consumidor”, disse Romero, que, assim como um irmão que também participou do evento, planta laranja, limão e outros produtos, como quiabo e aipim e feijão. No final do dia, os produtores viram as demonstrações de pulverização feitas com pulverizadores costal e motorizado.
Rio Bonito pode ter posto de coleta de agrotóxicos
Para atender aos cerca de 850 pequenos produtores rurais da região, a Secretaria de Agricultura de Rio Bonito estuda a instalação de um posto de coleta de embalagens de agrotóxico na cidade. “Estamos tentando instalar um posto de coleta em Rio Bonito, para atender aos produtores de Rio Seco, Mata, Tomascar, Catimbau Pequeno e Catimbau Grande, pois esses produtores são os que usam mais agrotóxicos”, disse o secretário Marcos Ronaldo Carvalho Braga, que participou do evento.
Ele aproveitou para sugerir aos produtores que passem a ter uma Inscrição Estadual, pois com isso o município poderia conseguir mais recursos do Governo do Estado. Braga disse que a prefeitura estuda até disponibilizar um contador para que os pequenos produtores possam tirar o primeiro talão de Nota Fiscal e façam anualmente o DECLAN (declaração anual de produção), o que facilitaria até a aposentadoria deles.
Também participaram do Encontro o Chefe do Núcleo de Defesa Agropecuária de Rio Bonito, Paulo Henrique P. de Moraes, os engenheiros agrônomos Licínio Silva Louzada (chefe do escritório local da Emater) e Jadir Eustáquio, e Jaime Luiz da Silva. “O resultado foi excelente. Atendemos 75 produtores de uma vez só. Além de termos um custo menor, isso facilitou a interação entre os produtores, que receberam informações sobre vários assuntos ao mesmo tempo”, disse Licínio, esclarecendo que o encontro só foi possível graças a um convênio entre a Prefeitura Municipal e a Emater-Rio.