Guilherme Duarte

Uma festa rave, realizada no último sábado, dia 27, em Itaboraí, terminou em tragédia. O estudante Lucas Francesco Amêndola Maiorano, de 17 anos, morreu e outras 18 pessoas acabaram sendo internadas em unidades médicas e hospitalares com intoxicação causada por uso excessivo de álcool e outras drogas. Além disso, o médico Raphael dos Santos Maia, 26 anos, morreu ao bater com seu carro, um Peugeot 307, placa QUR 8323, na traseira de um caminhão. O acidente aconteceu na BR-101 na altura do bairro Jardim Catarina, em São Gonçalo. Ele teria cochilado ao volante depois de ter deixado a festa no Happy Land e morreu na hora. Cerca de 10 mil pessoas participaram da festa.

Lucas Francesco Amendola Maiorano, de 17 anos, entrou na rave com documento falso, já que só era permitida a entrada na festa de maiores de 18 anos. Segundo a Secretaria Estadual de Saúde, ele teria falecido depois de supostamente ter usado drogas sintéticas e ingerido álcool em grande quantidade. A hipótese ainda não foi confirmada, pois o exame toxicológico no corpo do jovem pedido pela polícia ainda não ficou pronto. Lucas, que era morador de Vila Isabel, na Zona Norte do Rio, mentiu para os pais e não contou que iria à festa. Segundo o tio da vítima, José Amendola, de 37 anos, ele disse que viajaria com amigos para Angra dos Reis, no litoral Sul Fluminense. O jovem entrou na Rave Tribe apresentando carteira falsa que o identificava como maior de idade e estudante de Medicina da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), que era o seu sonho. De acordo com a Secretaria Estadual de Saúde, ele chegou à unidade em coma antes de sofrer uma parada cardio-respiratória. Seu corpo foi enterrado no Memorial do Carmo, no Caju, Zona Portuária da capital fluminense.

Riobonitenses apontam falhas na organização do evento

Jovens riobonitenses que estiveram na rave de Itaboraí apontaram falhas na organização do evento. A maior reclamação foi sobre a falta de água. “O estoque de bebidas acabou no meio da rave e centenas de pessoas ficaram no sol escaldante sem ter como se hidratar. Comentei com um amigo que ia dar problema”, revelou um jovem, que preferiu não se identificar.

Ainda de acordo com o relato dos jovens, não existia nenhum esquema de revista para quem chegava com mochilas. Muitos deles afirmaram que não foi preciso nem mesmo comprovar maioridade. “Nem pediram meus documentos e olha que eu tenho cara de novo”, contou outro jovem.

Adolescente que sumiu após ‘rave’ reaparece

Depois de ter ficado 48 horas sem dar notícias aos seus pais, a adolescente Juliana Costa de Almeida, de 16 anos, que foi vista pela última vez na festa rave em Itaboraí, apareceu na noite da última segunda-feira. O seu pai, Luciano Lustoza de Almeida, de 38 anos, já havia registrado o desaparecimento na 71ª DP (Itaboraí), e procurado por ela em hospitais públicos da mesma cidade e de Niterói.

Luciano disse que pretende pedir a guarda da filha, que mora com a mãe no bairro Jardim Imperial, em Itaboraí, onde Juliana chegou às 22h da segunda-feira. A adolescente disse que mentiu para sua mãe, dizendo que ia a uma boate em São Gonçalo. No sábado, saiu à meia-noite e só entrou na festa às 6h do domingo, quando entrou sem apresentar documentos. Ela afirmou que consumiu bebidas alcoólicas e energéticos, e negou ter usado drogas. Permaneceu por 14 horas no local, e depois do evento seguiu viagem com mais sete amigos para Rio das Ostras, Região dos Lagos.

O pai da menor irá processar a empresa que produziu o evento, por permitir a entrada de menores e pela venda de bebidas alcoólicas. Ele disse ter perdido a confiança em sua filha, que ficará trancada em casa, por tempo indeterminado, até que a jovem “aprenda a lição”.

Polícia interdita local da festa em Itaboraí

Na tarde da última segunda-feira (29), policiais da 71ª DP (Itaboraí) interditaram o parque Happy Land, onde foi realizada a festa Rave Tribe. Segundo o delegado da 71ª DP, Antônio Ricardo Lima Nunes, a interdição do local será inicialmente de 30 dias, mas poderá se estender. O objetivo é proteger a área para não prejudicar os trabalhos de investigação da polícia. “Queremos continuar a perícia no local para ver se encontramos novas pistas. Também queremos evitar que outras festas sejam realizadas no local para evitar outras tragédias como esta. Durante a vistoria no parque, os policiais encontraram cocaína e uma grande quantidade de garrafas vazias de vodka, cerveja e outras bebidas alcoólicas”, disse.

O proprietário do Happy Land, José Roberto Vidal, e o dono da empresa de segurança privada que prestou serviço no evento, Cristiano Lobo, prestaram depoimento na delegacia. De acordo com o delegado Antônio Ricardo Nunes, eles alegaram que é difícil controlar a entrada de drogas porque algumas freqüentadoras as levam dentro do próprio corpo. Mesmo assim, o titular da 71ª DP afirmou que vai investigar se a segurança foi conivente com a venda de entorpecentes no local. Se isso for constatado, os responsáveis podem ser indiciados por colaborarem com o tráfico de drogas, crime com pena prevista de cinco a 15 anos de prisão.

Para a polícia, a revista no local foi falha. Mas o representante da empresa de vigilância, Cristiano Lobo, disse que 360 homens trabalharam no evento, divididos em dois turnos de 12 horas, e revistaram todos os freqüentadores. Ele garantiu que a droga entra na festa, principalmente, através de mulheres, que são feitas de “mulas”. Ele também frisou que muitas delas introduziriam a droga na vagina e, por isso, passaram imunes pela revista. “Nós não temos como prender a pessoa que está usando, pois ela engole. E como vamos provar que a pessoa estava usando?”, indagou Cristiano, acrescentando que, nas últimas festas em que atuaram, seguranças conseguiram deter pessoas com drogas e acionar a polícia. Ele também contou que alguns jovens teriam tentado agredir os atendentes dos bares após o estoque de água acabar.

Juiz havia proibido a entrada de menores

A entrada de menores na festa rave realizada no fim de semana no parque Happy Land estava expressamente proibida pela Justiça. A ordem havia sido dada três dias antes pelo juiz da 1ª Vara de Família, da Infância e Juventude da cidade, Vitor Moreira Lima. No dia do evento, porém, um segurança dos produtores afrontou a decisão judicial e impediu a entrada da fiscalização, o que só foi possível horas depois, com o auxílio da Polícia Militar.

Assim que os comissários entraram no parque, flagraram dois menores consumindo bebida alcoólica. Os jovens foram retirados do local e o estabelecimento foi autuado por descumprimento dos artigos 243, 252 e 258 do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). Além de ter sido constatado o consumo de bebidas por menores, o Happy Land não afixou, em lugar visível e de fácil acesso, informação destacada sobre a natureza da diversão ou espetáculo e a faixa etária especificada no certificado de classificação:

Na semana anterior à festa, com o intuito de evitar que a Justiça proibisse a sua realização, a Directa Produções enviou documento para o juiz, que foi recebido no último dia 23, informando que o público alvo era de 18 a 35 anos. Como não tinha como impedir, o juiz determinou severa fiscalização pelo Comissariado, advertindo que a presença de menores era expressamente proibida em qualquer horário, “tendo em vista tratar-se de evento onde, em tese, há alto consumo de drogas e bebidas alcoólicas”.

“Talvez se a diligência pudesse ser realizada, logo naquele momento em que a equipe teve seu acesso ilegalmente objetado, ao invés de duas vidas, poderia este Juízo ter salvo três, não se olvidando que a existência, ainda breve, de um adolescente pereceu em virtude, supostamente de excessos no consumo de drogas e álcool no ignóbil evento”, escreveu o juiz Vitor Moreira Lima ao deferir a liminar pedida pelo Ministério Público que interditou o parque pelo prazo de 30 dias.

O juiz determinou ainda a citação da Directa Produções, bem como do responsável pelo Happy Land. As peças dos autos de infração foram enviadas a 71ª Delegacia de Polícia para a apuração de eventual responsabilidade criminal dos sócios de ambas as empresas.