Flávio Azevedo
A previsão dos técnicos do Ministério das Minas e Energia, que há cerca de dois anos alertavam sobre uma possível falta de Gás Natural Veicular (GNV), foi confirmada nos últimos quinze dias através da crise que atingiu o setor. Apesar do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ter declarado na última quarta-feira (7), que o Brasil tem energia garantida até 2012 e do anúncio feito pela Petrobras que mais um poço de petróleo foi encontrado na Bacia de Santos, os usuários permanecem receosos quanto ao fornecimento.
Colabora para essa desconfiança, a afirmação do presidente da Petrobras Sérgio Gabrielli, que defendeu a diminuição do fornecimento de gás. Outra declaração preocupante, partiu da diretora de Gás e Energia da Petrobras Graça Foster. Embora ela tenha dito que o Brasil está “estufado” de gás, na mesma entrevista ela confirmou o reajuste do produto em até 25% nos próximos meses. Todavia, a maior decepção para quem investiu no uso do GNV, foram as palavras do ministro interino de Minas e Energia, Nelson Hubner, que desaconselhou novas conversões de carros a gás.
A crise contraria o próprio governo, que nos últimos 24 meses, além de incentivar a conversão dos carros para GNV, havia prometido que não haveria restrições no fornecimento de gás. A apreensão já chegou em Rio Bonito, sobretudo para os motoristas da cidade que investiram no kit gás em seus carros. É o caso do taxista Márcio Marçal, de 42 anos, que comentou sobre a crise.
– Desde que esses incentivos começaram, eu estava desconfiando com a facilidade que o governo estava dando para o pobre, afinal nós nunca somos beneficiados. Acho até que essa moleza demorou a acabar – disse Marçal, revelando que percorre 400 km por semana e gasta cerca de R$ 50 de gás. “O meu carro consome muita gasolina porque é 1.8. Se esses incentivos acabarem e o gás aumentar, certamente eu terei que desembolsar semanalmente cerca de R$ 200”, frisou.
Convertedoras da cidade podem ser prejudicadas
A preocupação está concentrada principalmente no Rio de Janeiro, por ser o primeiro Estado a incentivar o uso do GNV, o que deu ao Rio, a maior frota de veículos movidos a gás do país. Além disso, o governo estadual incentivou as conversões, ao oferecer desconto de 75% no Imposto Sobre Propriedade de Veículo Automotor (IPVA). Em Rio Bonito, nas duas oficinas da cidade que oferecem a conversão, a procura pelo serviço caiu cerca de 50%.
Para o empresário Macleréstic Torres, o Nenén, proprietário da convertedora Mackgás, a crise chegou em péssima hora, pois exatamente nessa época as pessoas decidem fazer a conversão para aproveitar o desconto do IPVA do próximo ano.
– Essa notícia está assustando as pessoas, mas a classe empresarial acredita na solução da crise. Nós confiamos no governador Sérgio Cabral que garantiu o abastecimento e a permanência do desconto do IPVA. Otimistas ou pessimistas, está ficando difícil dar crédito as declarações proferidas por nossas autoridades, porque mais adiante eles mudam o discurso ou se contradizem. – comentou Neném, que relembrou a crise do álcool em 1989. O empresário também ressaltou, que cerca de 50% da frota de veículos no Rio de Janeiro possui o kit gás, por isso, as oficinas ainda podem faturar com a manutenção dos kits. “Nós não só instalamos, mas damos a manutenção, o que é também uma fonte de renda para a empresa”, lembra.
Já o proprietário do Grupo Auto Gás, Eduardo Dias, confirmou a queda de clientes interessados pela conversão e relembrou que o Brasil queima uma grande quantidade de gás todos os dias (uma referência ao gás que é queimado nas plataformas de Campos. Segundo a Petrobras, faltam dutos para levar o produto aos consumidores).
– Quem tem prejuízo com a crise é povo, que poderá perder os benefícios, e os empresários do setor. Apesar disso, eu não acredito que o Rio de Janeiro vá enfrentar algum problema, porque o Estado é auto-suficiente em gás – disse o empresário, que levantou um fato novo. De acordo com ele, os carros tipo flex também contribuíram para a diminuição da procura pelo GNV. Dias aproveitou para fazer um alerta: “Carro flex é uma enganação, porque o motor flex consome mais álcool do que o veículo que é movido apenas por álcool. Mas as pessoas só percebem isso depois que compram o carro”, contou.
Governo promete investimento no setor
Segundo a Empresa de Pesquisa Energética do governo federal, com a entrada em operação de novos poços no Rio, em São Paulo e no Espírito Santo, a situação pode melhorar.
Também estão sendo construídos novos dutos. Com isso, a promessa é de que a oferta de gás no Sudeste aumente cerca de 200%. Mas só no próximo ano.
“O gás que existe no Brasil não é suficiente para atender todo o mercado. A demanda cresceu 14% ao ano, desde 2001. Um crescimento bem acentuado. Com os investimentos que serão feitos agora, será possível atender a partir de 2008”, explicou o presidente Maurício Tolmasquim.