Muitas carteiras, poucos motoristas!

Acredito que não houve um brasileiro, que mesmo envolvido com as alegrias das festas de Natal e Fim de Ano, não tenha ficado entristecido com a estatística da Polícia Rodoviária Federal (PRF), que divulgou no dia 26 de dezembro, os alarmantes índices de acidentes durante o fim de semana natalino. De acordo com a PRF, entre a zero hora de sexta-feira (21) e a meia-noite de terça-feira (25), só nas rodovias federais do país, ocorreram 2.561 acidentes automobilísticos, que foram responsáveis por 196 mortes e 1.879 feridos, em um dos Natais mais violentos dos últimos tempos.

Uma semana depois, nas comemorações de Ano Novo, houve uma redução no número de acidentes, mas nada que nos permitisse o otimismo visto em alguns noticiários, pois da zero hora do dia 28 de dezembro até a meia-noite do dia 1º janeiro, aconteceram outros 1.738 acidentes, que resultaram em 1.276 feridos e 99 mortos. Se fizermos a soma de 196 + 99, o resultado será 295 mortos. O número de mortes nos dois fins de semana é superior – e bem superior – ao número de vítimas da queda do avião da TAM, em São Paulo, pois naquele fatídico 17 de julho, 199 pessoas morreram. A diferença é que todas em um mesmo local.

Que absurdo! Em apenas 10 dias, 4.299 acidentes, 295 mortos e 3.157 feridos! As causas e desculpas para essas ocorrências estão manjadas e tão repetidas, que já se tornaram clichê. Penso que a falta de manutenção das estradas – apesar de ser um válido argumento –, tornou-se, ao longo dos anos, um assunto repetitivo que usamos para mascarar a imprudência, a inconseqüência e a imperícia, coisas tão comuns quando nós estamos dirigindo. Embora admitir esse comportamento seja difícil para nós – nosso hábito é enxergar apenas os defeitos alheios –, posso assegurar que nós agimos assim, e com raríssimas exceções. Mesmo aquele motorista mais comedido já teve o seu “Dia de Fúria” enquanto dirigia.
Aliás, sem querer escandalizar os nossos leitores, concluí que pelo grau de irresponsabilidade que demonstramos nas estradas, as mortes são poucas. Para aqueles que discordam das observações aqui contidas, eu gostaria de convidá-los a fazer uma rápida viagem. Sair daqui de Rio Bonito até Silva Jardim. Nos 33 quilômetros, que nos separam do município vizinho, a quantidade de absurdos que presenciamos e praticamos é tão grande, que eu às vezes penso que não irei mais regressar para os meus entes queridos.

Conversando com uma amiga sobre esse tema, ela me disse: “Flávio, eu tenho Carteira de Motorista, mas não sei como consegui. Aliás, eu não sei quem foi o maluco que achou que eu posso dirigir. Eu sou um desastre no volante e consciente disso, eu faço questão de andar no carona”. Já pensaram? Parabéns para a minha amiga, que está inserida naquelas raríssimas exceções mencionadas acima.
A verdade é que a Carteira Nacional de Habilitação (CNH), não é a mesma “Carteira de Motorista”. A CNH é um documento que nos autoriza conduzir um veículo. É o que nós somos, condutores. Agora, ser motorista é outra história, pois exige experiência, malícia, conhecimento mecânico, direção defensiva e, sobretudo, a técnica de dirigir para você e para os outros. Porque têm “habilitados” por aí, acreditando que a rodovia funciona como o carrinho bate-bate de um parque de diversões.

Penso também, que assim como outras Leis, a de trânsito poderia ser revista. As autoridades deveriam acrescentar, inclusive, o uso obrigatório do capacete como item obrigatório de segurança para os viajantes. Para quem discorda, o argumento é simples. A primeira corrida de automóveis da América ocorreu em 28 de novembro de 1895, e os participantes percorreram a distância de 65 km, entre as cidades de Jackson Park, em Chicago, e Evanston, em Illinois, nos Estados Unidos. O vencedor foi J. Frank Duryea, que concluiu a prova marcando um tempo de 7 horas e 53 minutos. O vencedor ganhou US$ 2 mil de prêmio, por alcançar a assustadora velocidade de 32 km/h durante a corrida.

Hoje, enquanto um Fórmula 1 pode alcançar a velocidade de 380 km/h, trafegam em nossas estradas, veículos que podem correr a uma velocidade de 270 km/h. Mas para que isso, se a velocidade máxima permitida no Brasil está entre 100 e 120 km/h? Por que estimular os motoristas, sobretudo os mais jovens a acreditarem que são o próprio Vin Diesel – um dos protagonistas do filme Velozes e Furiosos? Por isso eu defendo o uso do capacete. Em quase toda a competição esportiva, sobretudo aquelas que envolvem velocidade, o capacete é exigido. E nós – meros condutores – estamos aí... Conduzindo nossos veículos em alta velocidade e sem essa importante proteção.