Flávio Azevedo
O médico Anselmo Carvalho Ximenes, de 52 anos, e que há cerca de 30 trabalha no Hospital Regional Darcy Vargas (HRDV), é o primeiro convidado de uma série de entrevistas que o Folha da Terra fará, a partir de hoje, com personalidades da política local. Atualmente cursando gastronomia, Anselmo, que já exerceu dois mandatos de vereador e dois mandatos como vice-prefeito, durante a administração da ex-prefeita Solange Almeida, além de ter sido Secretário Municipal de Saúde, no primeiro governo do prefeito José Luiz Antunes, fala sobre a sua derrota nas eleições de 2004, sobre a sucessão municipal e da sua parceria com o deputado estadual Marcos Abrahão, que contou com seu apoio nas eleições de 2006, em troca do apoio à uma suposta candidatura sua a prefeito em 2008, entre outros assuntos. Atualmente Dr. Anselmo preside o diretório municipal do Partido Social Liberal (PSL).
Folha da Terra – Como o senhor analisa o atual momento político de Rio Bonito, que atualmente possui representantes na esfera federal (deputada Solange Almeida), e estadual (deputado Marcos Abrahão)?
Anselmo Ximenes: Os dois estão em início de mandato e ainda não da pra fazer uma avaliação. Os recursos que podem trazer para Rio Bonito e região dependerão do presidente e do governador, mas outros deputados também estão pedindo para seus redutos eleitorais. As pessoas querem resultado em curto prazo, porém isso é demorado e não depende só da vontade do deputado.
FT – Que benefícios Solange e Marcos Abrahão poderão trazer para o município?
AX: Muita coisa. O relacionamento com o Executivo é fundamental. Eles podem trazer obras, destinar verbas para proteção, conservação e reflorestamento da Serra do Sambê, que tem sido devastada e melhorar o repasse de verbas para educação, melhorando o orçamento de merenda. Além disso, verbas para saúde, que podem viabilizar projetos como a construção do CTI do Hospital Regional Darcy Vargas (HRDV) e ampliar o número de leitos e investimentos em saneamento básico.
FT – Nas últimas eleições municipais o senhor concorreu com o apoio da então prefeita Solange Almeida, mas foi derrotado com uma diferença de mais de três mil votos. A que o senhor atribui essa derrota?
AX: Eleição é uma coisa difícil. O povo escolheu José Luiz porque entenderam que ele era uma melhor opção. Além disso, a candidatura de Marcos Abrahão foi cassada 24 horas antes da eleição e foi noticiada no RJTV. O que aconteceu? Os eleitores dele – que já eram contrários a nossa candidatura – naturalmente votaram em José Luiz.
FT – O senhor faz parte do grupo político da deputada Solange Almeida, mas nas últimas eleições deu apoio ao deputado Marcos Abrahão, antigo desafeto da deputada. Como ficou o seu relacionamento com Solange?
AX: Meu problema não é com Solange. Sou amigo dela e votei nela. Eu não quis apoiar Paulo Mello, porque ele não cumpriu os acordos que tinha combinado comigo. Um exemplo é a construção da Delegacia Legal, que até hoje não foi concluída. Eu não tive a intenção de romper com o grupo, como disseram, aliás, na outra eleição, eu apoiei Paulo Mello, Solange não.
FT – E o relacionamento do senhor com Marcos Abrahão?
AX: É bom. Assim como eu quase não vejo Solange, também quase não vejo Abrahão, porque nós temos ocupações e não podemos estar sempre nos encontrando.
FT – Como o senhor vê a administração do prefeito José Luiz Alves Antunes?
AX: Isso é igual a casa da gente, cada um administra do seu modo. É difícil tecer algum comentário. Mas vejo como uma boa administração. A cidade está limpa, várias obras estão sendo realizadas, os fornecedores da prefeitura estão recebendo em dia. José Luiz está administrando bem.
FT – A classe política está cada vez mais desacreditada devido a sucessão de escândalos. Assusta ver também o judiciário envolvido nas mesmas situações?
AX: Em toda área existe o bom e o mau profissional e infelizmente as classes política e judiciária não escapam dessa realidade. Considero os corruptos traidores da nação, pois não foram escolhidos para esse fim. O que causa indignação é que uma senhora que roubou uma manteiga foi presa, e quem rouba milhões não é punido. O pior é que as leis protegem esses indivíduos. Acredito que a corrupção política seria corrigida se o voto não fosse obrigatório. Sobre o judiciário, só Papai do Céu! São eles que mandam em tudo!
FT – O senhor é funcionário do HRDV, que tem recebido algumas melhorias, mas que continua convivendo com dificuldades, principalmente financeiras. Qual a solução para esse problema?
AX: A diretoria tem uma vontade muito grande de acertar, mas a saúde está ruim a nível nacional. Não adianta a diretoria do hospital ter boa vontade sem a ajuda do governos. A prefeitura ajuda, mas só isso não basta. Antigamente o governo federal ajudava. É preciso melhorar o coeficiente de honorário e as diárias são muito baratas. Se o governo pagasse preços justos pela prestação de serviço, quem administra os hospitais não ficaria de pires na mão pedindo dinheiro. Mas eu vejo outras prioridades.
FT – O senhor apontaria essas prioridades?
AX: Além do CTI, uma melhoria no Pronto Socorro. O projeto existe, mas não está saindo. Para nós que trabalhamos na emergência, seria importante a reestruturação física daquele setor. Um contingente maior de médicos, com plantonistas para ortopedia e neurologia é muito necessário, mas é preciso de dinheiro. É aí que entram os governos federal e estadual.
FT – Há 15 dias, a diretoria do HRDV iniciou a construção do CTI. O senhor acredita que o projeto, finalmente, vai sair do papel?
AX: Acredito. As obras começaram e já tem bastante equipamento. Mas existem algumas dúvidas. Será que o governo federal ou estadual vão credenciar o CTI? Se isso acontecer, representa a entrada de bons recursos para o hospital. Outro ponto é a diária e a mão-de-obra específica, que é cara. Tem que ter no mínimo sete profissionais e plantões de 12 horas. Mas existem alguns pontos críticos. Como seria a remuneração desses profissionais? Eles terão o salário superior ao dos plantonistas da emergência?
FT – O país fala em desenvolvimento e lançou o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). Apesar disso, os jovens permanecem sem oportunidade de emprego. O que o município pode fazer para ajudar?
AX: O administrador público tem poder para diminuir os impostos e estruturar o condomínio industrial. A carga de impostos pesados e as leis trabalhistas são pesadas. Isso dificulta a geração de emprego.
FT – O Complexo Petroquímico do Estado do Rio de Janeiro (Comperj) está prometendo uma nova realidade para a região. O senhor acredita nisso?
AX: Será uma nova realidade, com pontos positivos e negativos. O progresso é bom, porém traz problemas como a hiperpopulação, que busca emprego, mas quando não consegue fica marginalizada. Isso está acontecendo em Macaé. Também surgem os loteamentos de “R$ 1,99”, causando favelização. O desenvolvimento às vezes compensa, mas o município precisa estar preparado para receber esse impacto.
FT – O senhor acha que Rio Bonito está preparado para absolver esse impacto?
AX: Acho que não. As pessoas não têm idéia da dimensão desse empreendimento. As áreas de saúde, habitação, alimentação, hospedagem, lazer etc., tem que crescer.
FT – O senhor, além ter sido secretário municipal de Saúde no primeiro governo do prefeito José Luiz, foi vice-prefeito por oito anos de um governo que tinha a saúde como a principal bandeira. A saúde do município tem recebido duras críticas da oposição. Em sua opinião, essas críticas têm fundamento?
AX: Quando eu era governo nossa saúde era criticada também. Como médico, acho que a saúde vai bem. Eu só acho que o governo deveria priorizar a utilização dos profissionais da cidade para realizar exames. Certamente novos empregos seriam criados. Questão política não é, porque fui adversário do prefeito José Luiz nas últimas eleições municipais. No entanto, continuo realizando endoscopia para o município.
FT – O senhor é pré-candidato a prefeito de Rio Bonito nas eleições do próximo ano?
AX: A principio eu não sou candidato, mas estou aberto a negociações. Até porque estou em um momento especial da minha vida e com novos horizontes. Não tenho nada contra José Luiz, mas acho que Rio Bonito perdeu a oportunidade de me ter como prefeito.
FT – Quando o senhor apoiou Marcos Abrahão para deputado, o combinado foi que ele apoiaria o senhor para prefeito em 2008. Como está essa situação?
AX: Eu e Marcos ainda não sentamos para conversar sobre isso. Ele me disse que não teria interesse em ser candidato a prefeito em 2008, e o combinado foi esse, mas não sei se serei candidato. Uma certeza eu tenho: o PSL irá indicar alguém.
FT – Nas ruas já se comenta sobre uma chapa formada por Marcos Abrahão como candidato a prefeito, tendo o Dr. Emanuel como vice. O que o senhor acha?
AX: Nós estamos na época das especulações e muitos nomes são mencionados. Eu não sei dessa dupla. Emanuel é meu anestesista e quase todos os dias estamos juntos em cirurgia. Ele não comentou nada comigo.
FT – Desses nomes que estão sendo especulados, quais o senhor daria como certos nas próximas eleições?
AX: Acredito que hoje os únicos pré-candidatos certos seriam o prefeito José Luiz, tentando a reeleição e o vereador Reis. Outros nomes eu não arriscaria dizer.
FT – Como o senhor analisa esses dois nomes?
AX: Pessoalmente eu me dou bem com os dois. Reis participou da nossa campanha e foi nosso vereador. José Luiz é meu amigo particular. Eu não arriscaria falar da qualidade de um e de outro. Como político, não vale a pena entrar nessa questão.
FT – Além do seu trabalho como médico, o senhor está cursando gastronomia, e seus amigos conhecem a sua vocação para a arte culinária...
AX: Sim, eu gosto muito de cozinhar e resolvi me aprofundar no assunto. Também gosto de comércio. Quem sabe futuramente terei um restaurante?