Dossiê pode ser intriga palaciana

Nas últimas semanas, a mídia massificou os nossos sentidos com um assunto que quando bem analisado percebe-se que se trata de uma ferramenta comum nas mãos de quem transita no intestino do poder. Em Brasília, ganhou corpo e espaço a história de um suposto dossiê que teria sido montado pela secretária da ministra chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff. O documento seria um levantamento dos gastos acontecidos durante os oito anos de mandato do ex-presidente, Fernando Henrique Cardoso. Segundo o deputado federal pernambucano Raul Jungmann (PPS), os dados seriam utilizados como resposta aos constantes ataques da oposição, a utilização dos Cartões Coorporativos. Um deles chegou a ser usado para comprar um quitute de tapioca.

Analisando essa história, que mais parece um roteiro de Benedito Ruy Barbosa, sou obrigado a fazer coro com o senador piauiense Heráclito Fortes (DEM). O senador comentou na semana passada, que a ministra Dilma Rousseff começa a sentir o calor da frigideira que é o Palácio do Planalto. Aliás, penso que nessa história, duas coisas estão bem nítidas, mas obscuras ao olhar dos desatentos. Em primeiro lugar, a oposição não tem nenhuma preocupação com os escândalos dos cartões coorporativos. Digo isso, porque coisas bem mais esdrúxulas ocorreram durante o governo da oposição. Por exemplo, a “doação” da Vale do Rio Doce para os investidores estrangeiros. Imagine que a compra foi realizada com dinheiro que o Banco Nacional de Desenvolvimento Social (BNDES) emprestou. Um negócio de pai pra filho. “Filho, eu vou te emprestar esse dinheiro para você adquirir aquela empresa. Quando ela começar a dar lucro você me paga”. Se eu soubesse disso, eu tinha feito o empréstimo e comprado a Vale.

A oposição está simplesmente mostrando ao país, que aquele Partido dos Trabalhadores (PT), que vivia enrolado na bandeira da ética, pregando a honestidade e os bons costumes na política, tornou-se ‘mais um’ quando chegou ao poder. Ou seja, estão aproveitando para tirar uma casquinha dos “éticos” petistas. Isso irá acontecer sempre que houver um escândalo no governo Lula, porque eles chegaram ao poder vendendo a imagem de serem melhor do que os outros, mas adquiriram as mesmas práticas tão criticadas por eles.

Mas tem outra coisa. Eu não tenho dúvidas que esse dossiê é fruto de uma intriga palaciana. Para quem não sabe, o presidente Lula pretende indicar a ministra Dilma Rousseff como sua sucessora em 2010. Mas coincidentemente, veja só, esse assunto aparece exatamente na semana que a ministra ganhou do presidente a alcunha de “mãe do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC)”. É claro que muita gente gostaria de ver a “protegida” de Lula pelas costas. Ou seja, não seria nada demais, se ela perdesse sua credibilidade, sobretudo junto ao Presidente da República, que para se safar com o velho discurso do “eu não sabia de nada”, deixaria a ministra da Casa Civil se enforcar em suas próprias cordas como aconteceu com o seu antecessor, José Dirceu.