
A Companheira ‘Estela’
Na última semana, abordamos as intrigas palacianas que estão por trás de um suposto dossiê que Erenice Guerra, a secretária da Ministra Chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff teria preparado, detalhando os gastos do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso enquanto esteve na presidência. Entre outras coisas, analisamos que a publicidade dessa história seria uma tentativa de frustrar uma possível candidatura da ministra ao Palácio do Planalto. E, diga-se de passagem, o presidente Lula tem essa intenção. Entretanto, uma curiosidade não sai da cabeça do brasileiro: quem é Dilma Rousseff?
O brasileiro desatento que não acompanha a vida política do país, não conhece a ministra. Aliás, não sabe nem em quem votou na última eleição. Mas quem acompanha a vida pública do Brasil – por isso está lendo esse artigo – sabe que ela já foi ministra de Minas e Energia. Sabe também, que ela chegou a Casa Civil para substituir o ex-ministro José Dirceu, quando ele se ausentou do poder devido ao escândalo do mensalão.
Até os mais desconfiados e céticos, concordam que o semblante, o porte e a fala da ministra transmitem credibilidade e seriedade. Por isso, recebeu o apelido de durona, mandona e chata. As pessoas próximas a ela, afirmam que Dilma é rigorosa com horários e sôfrega por cumprir tarefas. No site de relacionamentos Orkut, enquanto uma comunidade a odeia, outra a quer na Presidência. Talvez, esses atributos tenham colaborado, para que Lula a escolhesse para dizer ao mundo, em novembro de 2007, que a Petrobras encontrou gigantescas reservas de petróleo no campo de Tupi, na Bacia de Santos. A frieza demonstrada pela ministra durante o anúncio da descoberta foi impressionante. Em vez de um discurso inflamado, um mini-comício – como certamente outros fariam –, Dilma fez um discurso técnico, com a postura de quem conhecia o assunto.
Embora os comentaristas políticos tenham diagnosticado a intenção do presidente Lula de empurrar a ministra para os holofotes – o objetivo era apenas divulgar a imagem de Dilma tornando-a mais conhecida para a candidatura em 2010 –, quem viu o anúncio notou que ela o fez com mais categoria do que o próprio presidente o faria. Aliás, ficou muito nítido, que ela chegou para recolocar o governo nos trilhos. Além disso, ela deveria cuidar das relações do Planalto com a Câmara Federal, o Senado e o Judiciário. Contudo, pouca gente sabe que a ministra Dilma Rousseff, já respondeu pelo nome de ‘Companheira Estela’.
Mas vamos conhecer um pouco mais a Companheira Estela, que na verdade é Dilma Vana Rousseff Linhares. Ela nasceu em Belo Horizonte, em Minas Gerais, em 14 de dezembro de 1947, estudou em colégio de freiras, o Sion, foi criada em Uberaba e passou por dois casamentos. O primeiro marido, foi com o jornalista mineiro Cláudio Galeno de Magalhães Linhares, que levou a jovem Dilma de apenas 20 anos, para a luta política, em 1967. O segundo, é o ex-deputado e ex-guerrilheiro Carlos Franklin Paixão de Araújo, que é o pai da única filha da ministra, Paula, que é juíza do Trabalho em Porto Alegre.
O livro “A Ditadura Escancarada”, do jornalista Élio Gaspari, conta que a companheira Estela foi responsável por uma série de ações de guerrilha por ocasião da ditadura militar. Ela ajudou a elaborar três assaltos a bancos e também a veículos oficiais que transportavam armas. Como aconteceu com uma Kombi carregada de fuzis em Osasco – SP. A incursão, porém, de maior sucesso foi o roubo do cofre de Adhemar de Barros, ex-governador de São Paulo. O episódio aconteceu em 18 de julho de 1969. O cofre ficava escondido na casa do irmão de Ana Capriglioni, amante de Adhemar. O imóvel era uma mansão e ficava situada no bairro carioca de Santa Tereza. Participaram da operação, 13 guerrilheiros. Enquanto nove entraram na residência, quatro deles ficaram fora patrulhando. A ação durou cerca de meia hora. O cofre pesava cerca de 300 quilos. Em seu interior, os guerrilheiros encontraram a bagatela de US$ 2,5 milhões.
Esses guerrilheiros eram membros de uma organização marxista chamada de Vanguarda Armada Revolucionária-Palmares (VAR-Palmares). Esse grupo nasceu de uma fusão entre a Vanguarda Revolucionária, de Carlos Lamarca e o grupo Colina, que tinha a liderança da companheira Estela. Ela não participava das incursões para não correr o risco de ser presa, já que era a mente de Estela que arquitetava as ações. Por isso, o grupo não podia perdê-la.
Mas aconteceu. Em janeiro de 1970, Dilma Rousseff, aos 22 anos, foi levada pela Operação Bandeirante – polícia repressiva – para a Rua Tutóia, o mesmo local que cinco anos depois receberia o jornalista Wladimir Herzog. Vlado, como ele era mais conhecido, agüentou apenas um dia de tortura, e morreu. Dilma suportou 22 dias e sobreviveu. A própria ministra conta o que aconteceu durante os dias que esteve em poder dos militares. “Levei muita palmatória, me botaram no pau-de-arara, me deram choque, muito choque. Comecei a ter hemorragia, mas eu agüentei. Não disse nem onde morava”, lembra Dilma.
Depois desse relato, o eleitor certamente concluirá que não pode votar na Dilma Rousseff, caso ela seja candidata em 2010. Todavia, devo advertir que o outro candidato, o governador de São Paulo José Serra, não é nenhum santinho. Enquanto Dilma Rousseff aprontava como companheira Estela, Serra que nasceu na Mooca, zona leste da capital paulista, em 1942, era presidente na União Nacional dos Estudantes e militou no combate a ditadura. Essa militância fez com que ele se exilasse durante 14 anos em países como Uruguai, Bolívia e Chile, até voltar para o Brasil, em 1978.
Portanto amigo, não tem pra onde correr.