
Isabella, quem ou por que?
Não me interpretem como sendo um sujeito duro e sem sentimentos, porque como a maioria dos brasileiros, eu também estou impressionado com os mistérios que envolvem a morte de Isabella Nardoni. Sobretudo, porque os suspeitos são aqueles que deveriam ser os protetores dessa criança. Mas, infelizmente, a mídia transformou esse caso numa novela. Aliás, esse assunto saiu da editoria de polícia, e já há algum tempo está na editoria de fofoca ou entretenimento.
Vejo com tristeza, que em todas as reportagens, a pergunta que predomina é: “quem matou Isabella”? Penso que esse caso está causando expectativa semelhante a que foi causada pela novela Vale Tudo, da TV Globo, que foi ao ar em 16 de maio de 1988, e permaneceu até 6 de janeiro de 1989, no horário das 20h30min. A trama foi escrita por Gilberto Braga, Aguinaldo Silva e Leonor Basséres e tinha direção de Dênis Carvalho e Ricardo Waddington. Vale Tudo contou em seus 203 capítulos, com a atuação de atores do quilate de Regina Duarte, Antônio Fagundes, Glória Pires, Carlos Alberto Riccelli, Beatriz Segall, Renata Sorrah e grande elenco.
Surge em Vale Tudo, uma pergunta metafórica, que passados 20 anos ainda reaparece nas rodas de bate-papo, quando se aborda um assunto misterioso: “quem matou Odete Roitman”? Aliás, esse foi o grande mistério da trama, só revelado no último capítulo. Para se ter uma idéia do suspense, o Ibope registrou que 86% dos televisores ligados no país, estavam sintonizados no capítulo final da telenovela. Para manter o mistério, a cena que revelaria o autor do crime foi gravada no dia da exibição. O amigo pode até discordar, mas eu vejo essa mesma expectativa em torno da história de Isabella Nardoni.
Contudo, penso que os elementos do lead estão mal trabalhados na abordagem desse crime. Você deve está querendo saber, “o que é um lead”? Eu explico. Lead é o primeiro parágrafo de um texto jornalístico. E, segundo o doutor em comunicação, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Muniz Sodré de Araújo Cabral, esse primeiro parágrafo ou lead, deve responder seis perguntas básicas: “o que? (o fato), quem? (os personagens envolvidos), como? (a forma em que o fato se sucedeu), onde? (local), quando? (dia e hora) e por que? (o que motivou o fato).
Fica muito nítido que nesses crimes considerados bárbaros, que despertam o interesse das pessoas, as empresas que ganham dinheiro com comunicação social (jornal, rádio, televisão ou revista) cobrem a história com ‘shownalismo’, e não com jornalismo. Digo isso, porque eles trabalham abordando o elemento ‘quem’. Ou seja, explorando os personagens da história. Nesse caso, por exemplo, eles exploram Isabella, as famílias, a polícia e os métodos de investigação, a Justiça e as possíveis decisões etc. Bom seria, se esses assuntos – e todos os outros – fossem abordados com compromisso social, para que a sociedade alcançasse a maturidade em suas relações sociais.
É preciso saber, que as empresas de comunicação visam o lucro como qualquer outra – e não estão errados. O erro é transformar a notícia em entretenimento. Por isso, as informações que estão a nossa volta, geralmente são mascaradas e corrompidas. Mas, precisamos reconhecer que fofoca vende. Nunca é demais lembrar, que para causar mais sensação ou sensacionalismo às notícias, elas passaram a ser escritas com uma técnica identificada como ‘fait-divers’. Muniz Sodré destaca que o objetivo da introdução do sensacionalismo na notícia, é para torná-la mais atrativa. Dessa forma, ela é acompanhada como se fosse uma novela, que a cada dia se assiste um novo capítulo.
Penso que a educação no Brasil seria muito mais eficiente se as coberturas jornalísticas fossem pautadas no elemento ‘por que?’, e não no ‘quem?’. Ou seja, a pergunta “quem matou Isabella?”, seria substituída pelo questionamento: “por que mataram Isabella?” O que teria motivado essa ação? Acredite, o ganho social seria impressionante, pois as pessoas iriam refletir sobre uma questão mais elevada: “o que acontece com a nossa sociedade, que vem produzindo mais e mais casos como esse”?
Vamos relembrar: Suzane Richthofen, com a ajuda dos irmãos Cravinho assassinou os próprios pais, em 31 de outubro de 2002. Outro: o jornalista Antonio Pimenta Neves, matou a ex-namorada Sandra Gomide, em 20 de agosto de 2000. Mais um: Felipe Caffé e Liane Friedenbach, em novembro de 2003, foram mortos covardemente por um menor chamado Champinha e mais quatro comparsas. Tem mais: em 7 de fevereiro de 2007, o menino João Hélio Fernandes, de seis anos, pendurado pelo cinto de segurança, foi arrastado por sete quilômetros, pelos bandidos que roubaram o carro da sua mãe. E as atrocidades contra os recém-nascidos? Só em junho de 2006, em Belo Horizonte (MG): enquanto um bebê foi encontrado envolto num saco plástico, boiando na Lagoa da Pampulha, outro foi abandonado na soleira da porta de uma casa. Aliás, nesse mesmo dia, um recém-nascido foi jogado em um esgoto em Canoas (RS). Além disso, alguns dias depois, um bebê foi abandonado embaixo de um carro, em São Luís (MA).
Como diz a doutora em comunicação social, da Universidade Estácio de Sá, Rejane Moreira, “pensar dói, é um exercício cansativo e dá trabalho”. Por isso, para que o leitor, ouvinte ou telespectador, seja poupado da tortura que é, pensar e refletir, a grande mídia, sobretudo, aquela que é direcionada a massa, prefere não abordar esses assuntos que levam à reflexão.
Escrevo isso, baseado no seguinte fato: os únicos debates inteligentes que eu vi até agora, sobre o caso Isabella Nardoni, foi na Globo News, no programa Entre Aspas, apresentado pela jornalista, Maria Beltrão e no Roda Viva, da TV Brasil. Sobre a Globo News, quantos podem assinar um canal fechado? Já sobre a TV Brasil, quantos assistem esse canal? Em ambos os casos a resposta é: ‘uma minoria’. Aliás, na casa de alguns a emissora nem pega. Ou seja, como sempre aconteceu em terras tupiniquins, a elite continua sendo privilegiada, quando se trata do acesso a educação.
Por outro lado, os estudos do professor norte americano Bem Singer – que estudou profundamente a comunicação, com ênfase na notícia e no cinema – revelam uma curiosidade: as pessoas do mundo moderno são fascinadas pelo grotesco, por atrocidades, desastres e temas dessa natureza. O professor ressalta, inclusive, que sabedor dessa tendência, o Estado utiliza o entretenimento como ferramenta de controle das massas, o que acaba como uma natural alienação.