Flávio Azevedo
Uma das sociedades recreativas mais tradicionais de Rio Bonito, o Cruzeiro Futebol Clube (CFC), completou no dia 1º de maio, 55 anos de existência. A agremiação é identificada por sócios e freqüentadores como um clube de característica familiar, onde predominam a solidariedade, cumplicidade e amizade entre aqueles que freqüentam o espaço. Segundo o presidente do Cruzeiro, Manoel Batista de Souza, essa peculiaridade tornou o ambiente um ponto de encontro de amigos. “Esse é grande diferencial do Cruzeiro, que atualmente possui cerca de 500 sócios”, diz.
O clube está sediado em um dos bairros de maior densidade demográfica de Rio Bonito, a Praça Cruzeiro. Na manhã da última quinta-feira (1º), a reportagem da FOLHA foi recebida pela diretoria do Cruzeiro, na sede do clube, para falar sobre a trajetória da agremiação ao longo desses 55 anos. Durante a reunião ocorreu um encontro de gerações. A contemplação de fotos antigas estimulou as lembranças e fez surgir inúmeras histórias, como a que foi narrada pelo aposentado Rochalino Pereira Damasceno, de 76 anos, um dos atletas fundadores do CFC, ao lado de nomes como Aldonir Siqueira, Sílvio Gato, Tiago Manoel da Silva, Nilto Garrote, Mumbuca, e muitos outros.
Como se estivesse fazendo um pronunciamento, Rochalino parecia recuperar a vitalidade dos seus 20 anos ao narrar como nasceu o alviverde Riobonitense. Segundo o aposentado, decorria o ano de 1950, quando um grupo de homens “sonhadores e audaciosos, que gostavam de futebol”, criaram um time de pelada e perceberam a necessidade de possuir um espaço fixo para a prática do esporte. “Tentamos jogar em um local que havia na Mangueirinha e num outro que encontramos lá para o lado de Mané Ramos (próximo a Rio dos Índios), mas não foi possível”, relembrou.
O aposentado revelou ainda que a situação só foi resolvida quando o engenheiro chefe do Posto Agropecuário de Rio Bonito, Edmundo Campelo – prefeito em 1958 –, decidiu ajudar a resolver o problema. Edmundo teria proposto um negócio a Eulálio Marins, proprietário das terras onde hoje é o bairro Ipê, e a Cândido Soares, dono de grande parte das terras onde hoje é a Praça Cruzeiro.
– Como Dr. Edmundo era engenheiro da União, ele prometeu a esses homens, que se eles vendessem para nós, pela metade do preço, o local onde hoje está o Cruzeiro, ele iria atendê-los em algumas coisas que eles precisavam – lembra Rochalino, destacando que o terreno “era uma encosta descaída onde havia um bananal”. “Nós compramos o lugar, e como eu era maquinista, Dr. Edmundo me emprestou um trator para que eu aplainasse a área. Tirei férias e durante os 30 dias fiquei aqui trabalhando sem nenhuma remuneração, pois o objetivo era ter o nosso lugar para jogar”, frisou.
Outras histórias
O atual presidente do CFC, Manoel Batista de Souza, de 57 anos, é natural de Campos dos Goytacazes, mas está em Rio Bonito desde 1969. Ele conta que quando se mudou para Rio Bonito, se identificou com a Praça Cruzeiro e com o clube, de onde nunca mais saiu. “Quando eu não tinha mais idade para jogar futebol, passei a me dedicar ao clube como dirigente, e me destaquei melhor”, avalia. Quem também conta uma história semelhante é o aposentado Délio da Silva Franco, que foi atleta e técnico do clube. “Cheguei para Rio Bonito com apenas 18 anos, em 1962. Conheci o pessoal do Cruzeiro, me identifiquei com o grupo e aqui fiquei”.
Délio diz que o Cruzeiro só foi respeitado como time da primeira linha do futebol da cidade a partir de 1983, quando conquistou o primeiro campeonato dos sete títulos que o clube possui ao longo da sua história. “Não posso deixar de mencionar o treinador Gerson Bezzi, porque com ele, vieram jogadores de alto nível, como Bal, Valdeci, Tinho, Formiga e Maurício Dendê. E fomos campeões”.
Torcida: patrimônio e símbolo do CFC
De acordo com a diretoria do CFC, a fanática torcida do clube é o grande patrimônio do alviverde. As histórias são muitas. De acordo com o presidente, nos bons tempos do futebol Riobonitense, “quando o mando de campo era nosso, uma hora antes do jogo já não havia ninguém nas ruas do bairro. A comunidade vinha toda para o campo assistir ao jogo”. Manoel conta que um episódio interessante aconteceu em uma das muitas finais que o Cruzeiro disputou contra o Motorista, um rival tradicional, junto com o Rio Bonito Atlético Clube. O jogo foi no campo do adversário e os cruzeirenses não puderam entrar. “Naquele dia a torcida levou escadas, pulou o muro e só dessa maneira pôde acompanhar o desempenho do time”, relembra.
Conquistas e personagens inesquecíveis
Os torcedores do alviverde Riobonitense se orgulham quando contam as histórias dos bi-campeonatos de 83/84, 86/87 e do tricampeonato de 90/91/92, ambos na categoria profissional. Outro orgulho é o tetracampeonato de Juniores (81/82/83/84) e a Copa da Paz de 2000. Em meio a muitas recordações, surge o nome de Aldonir Siqueira, que é reverenciado e respeitado por todos no clube. Falecido há 14 anos, Doni, como era mais conhecido, é chamado carinhosamente de ‘eterno presidente’. Todos são unânimes em dizer que Doni era “o homem que dava a vida pelo Cruzeiro”. O filho de Doni, que possui o mesmo nome do pai, Aldonir de Souza Siqueira, com 57 anos, dá detalhes da dedicação do desportista ao clube: “a vida de papai era o Cruzeiro. Ele nos trazia para cá todo fim de semana. Nós crescemos aqui dentro”.
Clube vive com dificuldades
Apesar de muitos títulos e de muitas histórias boas para se contar, o presidente do CFC revela que “a situação do Cruzeiro hoje é a mesma do futebol Riobonitense: decadente”. Manoel enfatiza que apesar de ser um dos poucos clubes que ainda movimenta o futebol da cidade, “as dificuldades são muitas”, principalmente econômicas. Os integrantes da diretoria dizem que “o futebol de Rio Bonito morreu junto com Emílio Pereira Pintas”, que foi por muito tempo presidente da Liga Riobonitense de Futebol. O vice-presidente Neiva Damasceno, afirma que “seu Emílio era torcedor do Castelo, mas era um verdadeiro desportista. Ele se preocupava com o futebol e muito nos ajudou”.
Homenagem a um dos seus fundadores
O Estádio Afonso Gomes Martinez ganhou esse nome em homenagem ao empresário espanhol (falecido em 1975) do ramo de olaria que também ajudou a fundar e erguer o clube. O Cruzeiro abriga um campo de futebol com medidas de 100x67, um de futebol soçaite, uma quadra de futevôlei, três vestiários, sala de troféus, estacionamento, bilheteria e o bar, um dos principais responsáveis pela arrecadação do clube. Atualmente uma das atrações é o forró que ocorre todas as sextas-feiras a partir das 23 horas. Além disso, todo o domingo acontece o torneio de peladas Só Paz. Em breve, a diretoria promete que haverá também competições de futevôlei no clube.