
Uma hipocrisia fenomenal
Confesso que continuo assustado, com a quantidade de paladinos que estão torcendo contra o nosso craque Ronaldo ‘fenômeno’, depois que ele se envolveu com travestis dias atrás. Eu não conheço a posição de quem está lendo esse artigo, mas sem querer polemizar, o discurso sobre o assunto é sempre proferido da tribuna da ‘moral e da virtude’, onde o moço é sempre condenado. Pensando nisso, desconfio ser necessário refletir sobre uma história que eu ouço desde criança.
A história é uma narrativa Bíblica, e que pode ser encontrada no capítulo oito do evangelho de João (quarto livro do Novo Testamento), dos versos um a onze. De acordo com o relato, Jesus Cristo estava no templo, quando chegaram os fariseus – membros da sociedade judaica defensores da lei de Moisés, que se mantinham afastados dos demais judeus, porque se achavam homens piedosos, santos, e melhor que os demais – trazendo uma mulher que havia sido flagrada em adultério.
Os fariseus disseram: “Mestre, esta mulher foi apanhada em adultério. E, segundo a lei de Moisés, tais mulheres devem ser apedrejadas. Tu, porém, o que dizes”? Neste momento, o narrador abre um parêntese na narrativa, para avisar que a verdadeira intenção daqueles homens era fazer Jesus agir contra as leis judaicas ou romanas para condená-lo. João retoma a história, contando que Cristo começou a escrever no chão. Mas, como os acusadores da mulher insistiam na pergunta, Jesus lhes disse: “Aquele que dentre vós não tiver pecado, atire a primeira pedra”.
Depois dessa resposta, aqueles homens foram acusados por suas próprias consciências e trataram de retirar-se. Restaram no local, a acusada e Jesus, que não vendo ninguém perguntou: “Onde estão os teus acusadores, ninguém te condenou”? Ela respondeu que não. Cristo encerrou o assunto com as seguintes palavras: “Eu também não te condeno. Vai, e não peques mais”. Bem, eu não vou fazer um sermão. Mas, vou juntar esse conceito com o pensamento do sociólogo, Émile Durkheim, que identifica na sociedade moderna, valores tradicionais e morais que resistiram as mudanças da modernidade. O sociólogo chama esse fenômeno de “mola moral”. De acordo com ele, essa mola suaviza a diferença das relações sociais, coletivas e individuais. Contudo, tenho a impressão que em algumas ocasiões, a moralidade fere e magoa as pessoas e a sua subjetividade.
Retornado ao assunto Ronaldo, um dos brasileiros mais reverenciados dos últimos tempos, eu não entendi porque o herói do Penta, se tornou ‘persona non grata’ pelo fato simples e corriqueiro de ter procurado garotas de programa para se divertir. Penso que a sociedade está vestida de um moralismo bobo, como se ninguém soubesse que Ronaldo, e uma quantidade incontável de homens importantes, bem casados, bem nascidos e bem sucedidos da nossa sociedade, de vez em quando, ou regularmente contratam os favores sexuais de uma prostituta. Ou já nos esquecemos da tórrida relação do executivo Olavo Novais (Wagner Moura), com a prostituta Bebel (Camila Pitanga), na novela Paraíso Tropical? Gente, a ficção é um retrato da realidade! O escritor Gilberto Braga não tirou essa relação da cabeça. Ele descreveu ali, um segmento social.
Alguém poderá dizer: “mas ele se envolveu com travestis”! Gente, essa fala não cabe num país democrático, que está lutando para sair do grupo dos subdesenvolvidos. Na verdade, é esse argumento que lançou o homossexualismo e outras minorias na marginalidade. Hoje, colhemos esses amargos frutos. Aliás, a homossexualidade é tão antiga quanto a prostituição. Acredito que cada pessoa tem o direito de não concordar com o homossexualismo. No entanto, temos o dever de respeitar quem é gay, ou se envolve com eles. Eu fico intrigado, quando vejo pessoas que não acreditam ser a homossexualidade uma realidade. Também fico admirado, com gente que desconhece o fato de que os travestis são tão procurados quanto as mulheres. Mas, veja bem: ‘se eles não fossem solicitados, o que estariam fazendo na rua’? À toa? Coisa nenhuma! São contratados, e nunca é demais lembrar, que muitos tiram dos programas o seu sustento.
Aliás, é bom saber que o serviço das prostitutas e travestis não é barato. No caso de Ronaldo, por exemplo, o travesti Andréa Albertini disse que o programa custava R$ 600. Amigo, vamos combinar que o cidadão comum não tem seiscentas pratas para gastar com esse tipo de divertimento. Então vamos analisar: se quem recebe salário mínimo, está fora, quem é o contratante desse serviço? Quem tem grana. Ou seja, pode pagar pelo silêncio do contratado ou contratada, e ainda, calar a mídia para não ‘explanar’ o assunto.
Essa histeria em torno da escolha de Ronaldo é uma grande bobagem. Afinal, ele não é padre, não é pastor, ou seguidor de alguma religião que recomenda a abstinência sexual antes do casamento. Inclusive, por falar em casamento, ele não está casado. Sobre o fato de ter namorada. Isso é um padrão moral tradicional que é observado por quem é seguidor de uma religião. Como ele não é membro de nenhuma dessas religiões, ele está isento desse dogma. Por isso, vamos deixar a hipocrisia de lado e seguir o conselho do mestre: “Aquele que não tiver pecado, atire a primeira pedra”.