
A sociedade castrada
Os entulhos foram as únicas coisas que restaram das metrópoles alemãs quando acabou a Segunda Guerra Mundial. Os bombardeios deixaram 20 milhões de alemães desabrigados. Em Colônia, uma das maiores metrópoles alemãs, os 750 mil habitantes que haviam antes da guerra foram reduzidos a 40 mil. Os aliados usaram bombas incendiárias de fragmentação e detonação retardada. Além disso, utilizaram o bombardeio em tapete, que destruía cidades inteiras.
A história conta que a reconstrução da Alemanha foi feita por mulheres e crianças. Com baldes nas mãos, eles ajuntavam e limpavam pedras e tijolos. O ritmo de trabalho era parecido com o de uma linha de montagem. Os tijolos eram passados de mão em mão, até chegarem na parte de baixo dos escombros, onde eram limpos e empilhados para serem reutilizados nas construções. Onde não havia cavalos, as próprias mulheres puxavam os carros carregados. A fome era grande e o dinheiro perdeu o valor. O comércio funcionava no escambo. Tudo era trocado por produtos ou serviços. Fotos da época, podem retratar essa situação miserável dos alemães do pós-guerra.
Eu lembrei desse triste capítulo da história mundial, depois da disputa de pênaltis que definiu a Liga Desportiva Universitária (LDU), do Equador, como campeão da Taça Libertadores da América. A expressão dos cerca de 90 mil tricolores lembrava o semblante daqueles sobreviventes alemães. E tenha certeza, ambas as experiências foram amargas! Assim como aqueles que lotaram o Maracanã, eu também acreditava. Atrevo-me a dizer que o Fluminense fez por merecer o título durante a competição. Contudo, as ridículas cobranças de pênaltis de Dario Conca, Tiago Neves (o melhor jogador da partida) e Washington, desqualificaram a equipe para o título.
Há quem diga que houve falta de respeito e humildade para com o adversário. Não acho. Outros culpam o clima de oba-oba que antecedeu o jogo. O que não acredito. O Fluminense e a sua torcida fizeram o que devia ser feito. Acreditaram e demonstraram isso. Tenho certeza que um discurso cauteloso e dito em meias palavras também receberia críticas. Aliás, essa postura seria encarada como um sinal de covardia e falta de confiança. Um prenúncio para a derrota. Na verdade, eu até entendo, mas não posso compreender aqueles que reclamam das pessoas quem tem a ousadia de se posicionar sobre determinado tema – mesmo estando equivocado.
Antes de qualquer análise, é bom lembrar que o ‘regime militar’ caiu em 1985. Mas às vezes fica muito nítida, uma insistência da sociedade em permanecer naquele tempo – isso é visto até entre os mais jovens. Só para refrescar as lembranças, aquela foi uma época, onde quem se expressava ou falava fora dos padrões impostos pela ditadura seria preso, torturado e morto. E, infelizmente, isso está entranhado no inconsciente do brasileiro. Foi introduzida a ferros por uma televisão que só exibia – e continua exibindo – conteúdos inúteis. Ou seja, privilegiando o consumo, o entretenimento e estabelecendo padrões de beleza inalcançáveis. O que as pessoas não sabem é que a pretensão do regime militar era engendrar na mente do povo a crença que o cidadão de bem tem que ser dócil, ordeiro, passivo e servil – o que não é bem assim.
Só para lembrar, a geração que nasce e cresce a partir do regime autoritário, passa a produzir filhos alienados. Eles são meninos e meninas que não se atrevem a externar suas opiniões e vontades. Penso que a repressão violentou o brasileiro e castrou o nosso senso crítico. Aliás, quando alguém foge à regra e diz o que pensa, logo é reprovado por um sabichão da elite dominante. Na atualidade, fala, opinião e informação pertencem a um pequeno grupo. Como estudante de jornalismo, eu fico muito a vontade para fazer essa afirmação, porque os grandes meios de comunicação brasileiros pertencem a uma meia dúzia de famílias privilegiadas, que tem o hábito de se trocar por dinheiro, posição, poder e influência. E, diga-se de passagem: para uma opinião achar guarida e formar eco, deve conter conteúdos tradicionais, hegemônicos e dominadores.
Figuras como Renato Portaluppi (ou Renato Gaúcho), técnico do Fluminense – condenado por parte da crítica, por falar o que pensa –, são identificadas como polêmicas. Aliás, polêmico é todo aquele que enxerga a necessidade de mudança ou prega a importância da inovação. Essa fama, também tem quem se posiciona contra o espírito anacrônico das nossas instituições. Ganha essa marca, quem discorda que a desigualdade e o cinismo são ferramentas para se alcançar o poder. É preciso pensar, raciocinar, possuir espírito crítico e exercê-lo. Mas, sobretudo, é necessário estudar e estudar muito. Para que? Para que as afirmações sejam coerentes, respeitadas e incontestáveis.