Motivos para chorar

Creio que muitos de nós ainda estamos sensibilizados com as palavras do ginasta Diego Hipólito, que em lágrimas pediu desculpas aos brasileiros por não ter conquistado a almejada medalha de ouro nas Olimpíadas de Pequim. Penso que ele não tem motivos para ficar se desculpando, como se a sua queda fosse uma catástrofe. Aliás, nunca é demais lembrar, que o jovem ginasta representa um país que não tem o hábito de investir em programas que incentivem a prática de esportes olímpicos.

Se alguém discorda do meu pensamento, cito o pai do nadador César Cielo, que depois de ver o filho conquistar a medalha de bronze nos 100m nado livre, revelou a luta que vem travando para custear as despesas do filho, que começou a nadar com oito anos de idade. De acordo com o pai do nadador, depois de tanto sacrifício para ver o filho chegar ao auge da carreira, ele e a esposa correram o risco de não assistir a final dessa competição.

Na final dos 50m nado livre, onde Cielo conquistou a medalha de ouro, eles (os pais) só conseguiram entrar na arena esportiva, porque uma emissora de TV disponibilizou as entradas. Para assistirem a semifinal (dessa prova), eles tiveram que comprar as entradas com os cambistas chineses. “Pagamos um absurdo. Gastamos quase US$ 1 mil para ver nosso filho”, desabafou o pai do nadador, que também criticou o Comitê Olímpico Brasileiro (COB) e a Confederação Brasileira de Desportos Aquáticos (CBDA), por não disponibilizarem ingressos para os familiares dos atletas. “Você olhava para o lado e via uma plaquinha escrita Kitagima Family (família do nadador japonês Kosuke Kitajima, medalhista de ouro nos 200m peito). Todos tinham ingressos e a gente passando por esse sufoco”, lamentou o pai do nadador, afirmando que o presidente da CBDA Coaracy Nunes, teria prometido os ingressos, mas não cumpriu a promessa.

Para finalizar, o médico pediatra, César Cielo, que tem o mesmo nome do filho campeão olímpico, declarou: “eu posso falar com tranqüilidade, porque não tenho rabo preso com ninguém. Viemos aqui por minha conta. Eu, minha mulher, minha filha e uma amiga. Fui eu que formei meu filho. Eu pago suas despesas no exterior, onde ele precisa viver para treinar. Nunca ninguém me deu nada. Sou o verdadeiro exemplo do paitrocinador”, disparou Cielo, contando que “já gastei cerca de R$ 40 mil com a viagem e estadia da família em Pequim. Tive até que refinanciar meu carro, mas não tem problema. Esse momento vale qualquer esforço. Vendo e compro de novo se for preciso”, analisou.

Ao tomar conhecimento do desabafo do chefe da família Cielo, percebi que as lágrimas de Diego Hipólito, são justas, em caso de tristeza pelo seu insucesso particular. Afinal, depois de tantas vitórias em outras competições, a medalha olímpica iria coroar a trajetória do ginasta com ‘chave de ouro’. Aliás, como brasileiro, me solidarizo com o atleta, mas peço a ele que não derrame uma lágrima por um país, onde o incentivo aos que praticam, ou pretendem praticar esportes olímpicos é praticamente nenhum. O que mais me aborrece, é que quando um deles alcança o sucesso, logo recebe telefonemas do presidente, do governador, do prefeito, aparecem os patrocínios e até o famoso carro de bombeiro aparece para carregar o atleta.

Penso que deveriam chorar e pedir desculpas ao povo brasileiro, aqueles que ocupam posição de poder e acham que estão dirigindo a nação com competência. Podemos citar, por exemplo, o ex-deputado Álvaro Lins (PMDB), que teve o mandato cassado pelos seus pares. Com o currículo que tem – graduado em Direito pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ), e mestrado na Universidade Gama Filho, onde leciona Direito Penal – ele não tinha o direito de participar do sistema que deveria combater.

Outros que também deveriam pedir desculpas aos brasileiros são aqueles empresários que investem R$ 100, R$ 200, R$ 500 mil em campanhas políticas. Digo isso, porque quando são convidados a colaborar com a festinha de uma escola, igreja, orfanato ou asilo, eles na maior ‘cara de pau’, alegam estarem com a empresa no ‘vermelho’. E não é só isso, contam uma história tão triste, que a pessoa que está pedindo a ajuda fica com vontade de oferecer R$ 1,00 ao ‘pobre comerciante’.

Em nossa cidade, infelizmente não são poucas as histórias de jovens, alunos, professores entre outros, que pedem, muitas vezes, apenas o abastecimento de um carro para chegar a um determinado lugar. Porém, asperamente ouvem uma resposta negativa. Perguntado sobre isso, o sujeito diz que bancar determinado candidato é um investimento, pois futuramente, o beneficiado pode devolver o favor, arranjando uma ‘boquinha’ no poder público. Logo, o dinheiro investido é recuperado com juros e ‘sem vergonha na cara’. No entanto, o sujeito esquece que o investimento no jovem e em projetos sociais sérios, além de poder ser descontado no Imposto de Renda, tira da marginalidade aquele que, no futuro, poderá assaltar o seu comércio ou a sua casa.

Portanto, vamos parar de culpar o poder público – principal responsável pela implantação de políticas públicas que beneficiam a população – por todos os problemas sociais. Acredito que as pessoas físicas e jurídicas deveriam fazer a sua parte. Veja bem, não é assumir a responsabilidade do governo, mas auxiliar. Penso que se todos nós colaborarmos minimamente, os resultados, além de animadores, nos apresentará outra realidade.